ÉTICA NAS REDES
Limites do engajamento: o impacto das narrativas falsas de Viih Tube
O Ministério Público do Trabalho iniciou apuração sobre o reality show de Viih Tube e Eliezer após a dupla admitir que a dinâmica tratava-se de uma encenação.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) iniciou uma investigação para apurar a dinâmica de um reality show criado por Viih Tube e Eliezer, após o casal admitir, nesta sexta-feira, 10/07/2026, que a produção tratava-se de uma encenação. A decisão dos influenciadores de ocultar o real propósito do conteúdo — que, segundo eles, visava conscientizar sobre a escala 6x1 — gerou críticas sobre o uso de estratégias de engajamento baseadas na desinformação e levantou debates sobre os limites da ética no ambiente digital.
A prática de ocultar informações para atrair a atenção do público, frequentemente associada ao chamado "rage bait", coloca em evidência a responsabilidade de figuras públicas diante de sua audiência. Especialistas apontam que o uso de polêmicas fabricadas inflaciona métricas e gera receita, mas ao custo de erodir a confiança do consumidor, um ativo cada vez mais valioso e escasso.
Priscila Milk, professora da ESPM, alerta que essa estratégia busca capitalizar sobre o algoritmo, que não diferencia o teor dos comentários, impulsionando conteúdos controversos. "Hoje a gente fala do 'rage bait', que infla os números e isso gera dinheiro", explica a especialista, ressaltando que marcas podem ser enganadas por relatórios de engajamento inflados por polêmicas.
O desgaste dessa relação com o público é o principal risco para os criadores de conteúdo. Mariana Munis, professora de Marketing do Mackenzie, observa que muitos influenciadores tentam aplicar métodos obsoletos da década de 2010. "As pessoas estão cansadas de quem tenta passar a perna nelas", afirma. O contraponto positivo é exemplificado por ações de marcas como a Snickers com Luan Santana, onde a transparência e a sensibilidade garantiram que a brincadeira não ultrapassasse o elo de confiança.
Sob a ótica jurídica, Márcio Casado, doutor em Direito pela PUC-SP, reforça que, embora a liberdade de expressão seja constitucional, a monetização altera a natureza do discurso. Segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), a indução ao erro pode acarretar responsabilização legal. "O artigo 37 do CDC diz que não precisa ter dolo; se o discurso engana ou induz ao erro, a pessoa pode ser responsabilizada", conclui Casado.
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