ACORDO IRÃ-EUA
Liderança do Irã apresenta acordo com EUA como conquista, mas enfrenta ceticismo interno
Governo iraniano busca capitalizar entendimento sobre sanções e segurança, enquanto críticos internas questionam a real dimensão da vitória. Detalhes cruciais permanecem em aberto.
A liderança do Irã tenta apresentar seu memorando de entendimento em negociação com os Estados Unidos não como um recuo, mas como uma conquista obtida pela resistência. No entanto, essa narrativa enfrenta desafios para se sustentar dentro do país, especialmente diante de iranianos que veem a crise como uma oportunidade para uma mudança de regime.
Integrantes do alto escalão iraniano, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian, descrevem o acordo como potencialmente transformador, capaz de resolver problemas nacionais e criar 'um mundo diferente' para o país e para o Oriente Médio. O apoio de figuras como Qalibaf, que não pertence ao campo moderado de Pezeshkian, sugere um respaldo de setores influentes do regime, inclusive da Guarda Revolucionária Islâmica.
Apesar do discurso oficial, há vozes internas críticas. Um deputado da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento classificou a minuta do acordo como um documento que transformaria o Irã em uma colônia dos EUA. Essa crítica, vinda de dentro de uma instituição responsável pela segurança nacional, ganha peso.
Grupos linha-dura no Parlamento e veículos alinhados ao governo argumentam há meses que os EUA não são parceiros confiáveis, usando as negociações como cobertura para ações militares e criticando o que chamam de política de apaziguamento. Embora essas vozes estejam mais silenciosas, a decisão de avançar com o acordo pode ter sido autorizada pelos níveis mais altos do Estado, mesmo sem um consenso.
A pressão econômica, decorrente da guerra, sanções, restrições à navegação e inflação elevada, foi um fator decisivo para que o Irã negociasse. A liderança pode apresentar o acordo como resultado de sua capacidade de pressão militar, mas a economia forçou a busca por um entendimento.
Para muitas famílias, a questão central não é a retórica de vitória, mas se o acordo conseguirá conter o custo de vida e afastar o risco de um novo conflito. O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, assegurou que o Irã não receberá dinheiro americano, mas poderá ter acesso a bilhões em investimentos se cumprir seus compromissos e as sanções forem flexibilizadas, o que permite ao Irã apresentar o acordo como um caminho para reconstrução.
Os riscos são evidentes, pois os detalhes do memorando ainda não foram totalmente divulgados. Uma nova rodada de negociações deve começar na Suíça nesta sexta-feira (19/06/2026), com as questões mais difíceis pendentes, incluindo o futuro do urânio enriquecido, mecanismos de verificação, alívio das sanções, o estreito de Ormuz e o Líbano.
Divergências expostas entre EUA e Israel, como as críticas de Donald Trump à atuação israelense no Líbano, são politicamente úteis para o governo iraniano, que pode apontá-las como um sinal de que sua estratégia de pressão limitou a margem de manobra israelense. No entanto, essas divergências também tornam o acordo mais vulnerável.
As reações do público sugerem que a narrativa oficial de vitória tem sido recebida de forma desigual. Alguns expressam desconfiança e preocupação com a capacidade do governo de conduzir o país sob o novo entendimento. Outros questionam os resultados concretos de ações militares, lamentando a falta de mudança política e o impacto negativo na economia. Há também quem veja o acordo como uma forma de ganhar tempo e tranquilidade, antecipando um respiro temporário.
Para muitos iranianos, o sucesso do entendimento será medido pelo fim da guerra, pela redução do custo de vida, pela flexibilização efetiva das sanções e pela capacidade da liderança de atravessar a próxima fase sem nova escalada do conflito.
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