DIREITO DE IR
Justiça mantém exigência de acesso independente para famílias cercadas pela Sigma Mineração
Decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais reforça obrigação de rota externa. Moradores denunciam impactos à saúde e à subsistência no Vale do Jequitinhonha.
A liberdade de ir e vir de famílias que vivem sob o impacto da operação da Sigma Mineração, no Vale do Jequitinhonha, foi reafirmada pelo Judiciário. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) decidiu, em 09/07/2026, que a empresa ainda não garantiu o acesso viário independente às comunidades vizinhas, mantendo a necessidade de regularização imediata do trânsito local.
A decisão, proferida pelo juiz Emílio Guimarães Moura Neto, da 1ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Criminais da Comarca de Araçuaí, estabelece que a mineradora deve assegurar o livre trânsito dos moradores, sem que estes dependam de autorização ou escolta da companhia para entrar ou sair de suas residências. Caso a empresa alegue impossibilidade técnica, terá o prazo de 30 dias para apresentar um projeto de rota alternativa externa, pública e totalmente independente das instalações industriais. O descumprimento pode gerar multa diária de R$ 500 mil.
Para a lavradora Paloma Pessoa Souza, moradora da comunidade de Ponte do Piauí, a rotina tornou-se uma vigília constante. Ela relata que a presença das pilhas de estéril e a necessidade de escolta para acessar a via pública impuseram uma barreira não apenas física, mas emocional. Segundo o relato, a privação do sossego e a constante poeira impactaram até a produção agrícola familiar, que antes garantia o sustento e hoje é inviabilizada pelas condições ambientais.
O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) aponta, por meio de relatório técnico, que o isolamento afeta ao menos oito famílias, que dependem da autorização da Sigma Mineração para deslocamentos básicos, como o transporte escolar de crianças. Embora o órgão tenha solicitado a aplicação de multa de R$ 15 milhões por atividades noturnas e supostos descumprimentos anteriores, o magistrado indeferiu este pedido específico na decisão de 09/07/2026.
Em sua defesa, a Sigma Mineração argumenta que cumpre as determinações judiciais e que as medições de ruído estão dentro dos parâmetros legais. A empresa destaca que implementou melhorias na via utilizada pelos moradores e que não restringe o direito de ir e vir. Quanto aos impactos ambientais, a companhia sustenta que não utiliza barragens de rejeitos e que suas operações de tratamento de água beneficiam comunidades locais com o fornecimento de água potável.
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) estima que mais de 100 famílias enfrentam dificuldades similares em comunidades como Santa Luzia e Piauí Poço Dantas. Relatos de problemas respiratórios, como os apresentados pela moradora Jéssica Pereira Santos Almeida, somam-se à tensão sobre a segurança e a qualidade de vida, deixando em xeque a convivência entre a atividade industrial e a permanência das famílias em suas terras ancestrais.
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