TRÁFICO INTERNACIONAL DESARTICULADO

Justiça condena chefe de quadrilha a 37 anos de prisão no Rio

Traficante condenado por exportar cocaína
Justiça Federal condena traficante internacional de cocaína

Lindomar Furtado liderava esquema que exportou mais de 6 toneladas de cocaína para Europa e África. Defesa anuncia recurso.

A Justiça Federal no Rio de Janeiro condenou, nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, Lindomar Reges Furtado a 37 anos de prisão. Considerado um dos chefes de uma organização criminosa internacional, Furtado recebeu a pena pelos crimes de tráfico internacional de drogas, pertencimento a organização criminosa e lavagem de dinheiro, após a quadrilha ter exportado mais de seis toneladas de cocaína do Brasil para a Europa e África.

A sentença impede que Lindomar Furtado recorra em liberdade, permanecendo detido enquanto sua defesa prepara o recurso. Essa decisão representa um duro golpe contra a impunidade e a estrutura do tráfico que corrói a segurança pública e afeta a vida de milhares de pessoas.

Lindomar foi um dos alvos centrais da Operação Turfe da Polícia Federal, deflagrada em fevereiro de 2022. Naquela ocasião, as autoridades tentaram prender vinte pessoas acusadas de envolvimento com o esquema. Câmeras de segurança do condomínio de luxo onde Furtado residia, em Hernandárias, no Paraguai, registraram sua fuga cinematográfica: ele saiu em um carro preto pelo portão principal apenas 50 segundos antes da chegada da polícia.

As investigações revelaram que o grupo criminoso despachou 6,68 toneladas de cocaína em 14 remessas distintas, realizadas entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2022, com destino à Europa e à África. Além disso, outras duas tentativas de envio da droga foram frustradas pela apreensão.

Para executar o plano, os criminosos empregavam uma estratégia audaciosa: retiravam contêineres lacrados com mercadorias lícitas do Porto do Rio, sem o conhecimento das transportadoras. Esses contêineres eram levados para galpões, muitos deles localizados em favelas sob domínio do tráfico, onde a carga legalizada era parcialmente substituída pela droga. Em seguida, os contêineres retornavam ao porto para serem embarcados em navios com destino aos continentes europeu e africano.

Durante os três anos em que permaneceu foragido, Lindomar tentou alterar sua aparência para não ser reconhecido pela Justiça. Segundo a Polícia Federal, ele se submeteu a harmonização facial, colocou lentes dentárias e chegou a usar perucas. No momento da prisão, Furtado utilizava uma peruca e se apresentava com o nome de Fabiano aos vizinhos de seu novo endereço no Recreio dos Bandeirantes.

Diante do juiz, durante seu interrogatório, Lindomar optou por permanecer em silêncio. No entanto, a sentença da Justiça Federal destaca que “todas as provas reunidas no processo demonstram que Lindomar R. Furtado, ao lado de Cristiano Córdova Nascimento, era o líder de uma organização criminosa dedicada ao tráfico transnacional de cocaína. E, como tal, era o responsável pela negociação com os fornecedores da droga, na América do Sul, e com os seus compradores, estabelecidos principalmente em Dubai. Essas atividades também lhe conferiam preeminência na administração dos recursos financeiros do grupo, que eram depositados em contas bancárias no exterior e posteriormente, ao menos em parte, eram internalizados de maneira dissimulada no Brasil”.

As investigações apontaram que a cocaína exportada pelo Porto do Rio era adquirida da Bolívia e da Colômbia. A atuação da organização criminosa abrangia toda a cadeia do tráfico: desde a negociação da droga com compradores estrangeiros, sua aquisição junto a fornecedores na Bolívia e Colômbia, o transporte para o Paraguai, a importação para o Brasil, o deslocamento para cidades portuárias, o armazenamento, a corrupção de agentes portuários para viabilizar a entrada da droga nos terminais e a violação de contêineres, até a logística de carregamento para exportação.

A Operação Turfe, que desarticulou esse esquema de tráfico internacional, recebeu o nome em alusão a Cristiano Córdova Nascimento, apontado como co-líder do grupo junto a Lindomar. Cristiano era proprietário de dezenas de cavalos de corrida, alguns premiados, e, conforme a Polícia Federal, usava o turfe para lavar o dinheiro sujo do tráfico. Ele foi preso em outubro de 2023 ao desembarcar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, e condenado a 26 anos e 3 meses de prisão.

O que dizem as defesas

Em nota, Silmar Júnior, advogado de Lindomar Furtado, afirmou que “irá recorrer da sentença, uma vez que no decorrer do processo ficaram demonstradas várias falhas ilegais sobre a investigação. Fatos que serão discutidos em sede recursal, conforme entendimentos dos Tribunais Superiores”.

Já o advogado Diogo Ferrari, que representa Cristiano Córdova, declarou ter “questionado a legalidade e os limites da infiltração policial que serviu de base à investigação. O ponto central é que o agente infiltrado não apenas observou os fatos. Valendo-se de decisão judicial, ele participou da dinâmica investigada e ofereceu uma estrutura logística que só poderia existir com apoio estatal. Nenhuma organização criminosa possui esse tipo de logística, que conta com o apoio da Polícia Federal e do Poder Judiciário para sua execução, tornando a operação de tráfico internacional de drogas verdadeiramente infalível”. Ele ainda ressaltou que “a condenação foi objeto de recurso de apelação, no qual sustentamos a ilicitude da infiltração e das provas dela derivadas. Combater o crime organizado é indispensável. Mas, quando o Estado cria as condições para que o delito aconteça, a linha entre investigar e fabricar prova se torna perigosamente estreita”.

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