EDUCAÇÃO ESSENCIAL

Jair Ribeiro defende foco em leitura e matemática básica em vez de trigonometria para alunos

Jair Ribeiro, fundador e presidente do Parceiros da Educação, em entrevista sobre educação.
Jair Ribeiro, fundador e presidente do Parceiros da Educação, em entrevista.

Fundador do Parceiros da Educação, Jair Ribeiro, aponta a necessidade de priorizar habilidades de interpretação e raciocínio. Dados do Saeb 2023 mostram defasagem em Português e Matemática no ensino médio.

Jair Ribeiro, fundador e presidente do Parceiros da Educação, defende que o Ministério da Educação (MEC) priorize o currículo, com foco em conhecimentos básicos e na capacidade interpretativa e de raciocínio dos estudantes. Ele argumenta que o aprendizado de disciplinas como trigonometria não é tão essencial quanto o domínio da leitura, escrita e fundamentos matemáticos para o futuro profissional dos jovens.

A declaração foi feita durante o evento Brasil Adiante, promovido pelo Estadão, que busca reunir propostas concretas para o próximo presidente do País. Ribeiro destacou que apenas 34% dos estudantes do 3.º ano do ensino médio público alcançaram nível adequado de aprendizagem em Português, enquanto em Matemática, esse índice cai para 5%, conforme dados do Saeb 2023 compilados pelo Todos pela Educação. Ele descreveu essa situação como um estado de "escuridão cognitiva" para muitos alunos.

Na visão do especialista, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é extensa, mas carece de profundidade. Ele ressalta a importância de desenvolver habilidades essenciais para que os jovens possam interagir com a inteligência artificial (IA), que pode funcionar como uma "grande niveladora de conhecimentos" se as bases forem sólidas. Ribeiro aponta a necessidade de o MEC atuar como indutor de políticas educacionais nos Estados e Municípios, que são os executores diretos da educação básica.

As propostas concretas para o próximo governo incluem a priorização curricular do MEC, com mais profundidade em Língua Portuguesa e Matemática; a expansão de escolas em período integral, citando o modelo de Pernambuco como exemplo de sucesso; e um programa robusto de recomposição de aprendizagem. Ele critica a redução de verbas para escolas integrais em favor de programas como o Pé-de-Meia, questionando a evidência de sua eficácia em comparação com programas de recomposição.

Ribeiro sugere que a priorização curricular pode ser feita de forma corajosa pelo MEC, alinhada a tendências globais. Para a recomposição, ele aponta programas como o Professor Tutor, existente em São Paulo e outros Estados, como eficazes. A recomposição deve focar no material didático e na personalização do ensino, adaptado ao nível de desenvolvimento de cada aluno, utilizando recursos que os Estados e Municípios já possuem ou que o MEC pode induzir.

Sobre a necessidade de mais professores, Ribeiro defende que o orçamento pode ser redirecionado, priorizando programas com comprovada eficácia. Ele exemplifica que o Pé-de-Meia custa cerca de R$ 18 bilhões, enquanto programas de recomposição têm forte base de evidências. A divisão de salas por níveis de proficiência ou a contratação de professores extras para turmas menores são alternativas que não necessariamente oneram o orçamento e não dependem de aprovação no Congresso, sendo uma questão de prioridade política.

A avaliação da eficiência desses programas pode ser feita com o robusto sistema de avaliações do Brasil, incluindo o Saeb e avaliações estaduais independentes. Ribeiro defende que o MEC deveria negociar metas para cada estado em relação às escolas integrais e apoiar com recursos, criticando a retirada de verbas anteriores. Ele observa que a oposição a esses projetos muitas vezes se dá pela priorização de programas "eleitoreiros" em detrimento de ações com maior impacto comprovado.

Em relação à IA, um estudo do Instituto Nacional de Economia dos Estados Unidos aponta que seu uso por profissionais de nível médio reduz o gap de produtividade. No entanto, é fundamental que esses profissionais dominem a linguagem e a matemática básica, e saibam como requisitar informações da IA, sem a necessidade de ensinar programação avançada.

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