CRISE EDUCACIONAL BRASIL
Ivan Siqueira: Desigualdade social limita futuro da educação no Brasil
Professor da UFBA, em conferência FAPESP 2026, aponta falhas cruciais e impacto de tecnologias digitais.
O pesquisador Ivan Siqueira, professor titular de Interdisciplinaridade da UFBA (Universidade Federal da Bahia), fez um alerta contundente sobre o cenário educacional brasileiro nesta terça-feira, 28 de abril de 2026. Durante a 2ª Conferência FAPESP 2026 – “Educação Básica no Brasil: Desafios e Oportunidades” –, Siqueira afirmou que a desigualdade social persiste como o maior obstáculo à qualidade da educação no país, além de destacar a urgente necessidade de alinhar o modelo de ensino às rápidas transformações tecnológicas e sociais. Essa análise profunda ressoa diretamente na dignidade e no futuro de milhões de jovens, comprometendo o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para a cidadania e a qualificação profissional em um mundo em constante mudança.
Siqueira aprofundou sua análise ao distinguir princípios e critérios na formulação de políticas públicas. Ele apontou que, embora a legislação brasileira, como o Artigo 205 da Constituição da República Federativa do Brasil, estabeleça diretrizes nobres – “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” –, falta a elas mecanismos objetivos de implementação. Na prática, essa ausência de critérios dificulta a cobrança e a efetivação do direito à educação para cada cidadão.
O professor criticou a natureza do Artigo 205, que, segundo ele, funciona como uma declaração de princípio, não como um critério passível de medição e fiscalização. “O princípio não é binário: você pode dizer que está indo em determinada direção, mesmo sem nunca chegar lá”, explicou. “Precisamos transformar princípios em critérios, porque critérios são objetivos e permitem cobrança.” Isso significa que, sem metas claras e mensuráveis, o Estado e a sociedade civil perdem ferramentas essenciais para garantir que a educação alcance de fato a todos, como preconiza a Constituição.
A consequência direta dessa lacuna atinge a governança educacional, sobretudo em municípios com menor capacidade administrativa. O pesquisador ressaltou que a maior parte da educação básica é gerida pelas prefeituras, as quais, muitas vezes, dispõem de recursos limitados e estrutura precária. “Grande parte da educação básica está nas mãos das prefeituras, que têm menos recursos e menos estrutura, justamente na fase mais importante do desenvolvimento humano”, alertou, destacando o impacto direto na formação das crianças e adolescentes que vivem nessas localidades.
A formação de professores também foi alvo de críticas. Siqueira denunciou que o sistema brasileiro ainda permite a graduação de docentes sem qualquer experiência prática em sala de aula. “O Brasil autoriza a formação de pessoas que nunca pisaram em uma sala de aula. Isso não acontece em áreas como medicina”, comparou, evidenciando a desvalorização da prática pedagógica. Paralelamente, a fragmentação curricular, com sua miríade de disciplinas, dificulta o aprendizado efetivo. “É ilusório imaginar que um aluno consiga aprender 13 disciplinas diferentes com menos de quatro horas de aula por dia”, pontuou, indicando que o modelo atual, que pressupõe uma escola em tempo integral, é uma realidade distante para a maioria do país.
O impacto transformador das tecnologias digitais
As tecnologias digitais trouxeram uma revolução silenciosa, alterando a forma como os estudantes aprendem, se concentram e interagem. Siqueira foi categórico: “O modelo tradicional de aula expositiva está morto. Ele não serve mais para os estudantes que temos hoje”. Ele observou uma crescente dificuldade de concentração e organização do pensamento entre os jovens. “Hoje é muito difícil manter um aluno focado por dez minutos. Para escrever, ele precisa pensar — e não está exercitando isso”, alertou, descrevendo um cenário que exige uma reconfiguração urgente das metodologias pedagógicas.
Essa nova realidade é agravada por fenômenos como a desinformação, a dependência de redes sociais e o preocupante aumento de problemas de saúde mental entre universitários. O professor revelou dados alarmantes: na UFBA, 70% dos estudantes de medicina e 80% dos de psicologia reportam questões de saúde mental. “Tanto que os professores, meus colegas, dizem que o pessoal vem para a psicologia para se tratar”, ilustrou, sublinhando a crise silenciosa que afeta a nova geração.
A IA (inteligência artificial) emerge como um vetor crucial de transformação. Se, por um lado, ela revoluciona o mercado de trabalho – Siqueira mencionou que os quatro maiores bancos norte-americanos demitiram 15 mil funcionários nos últimos quatro meses, gerando mais de US$ 1 bilhão de lucro, ilustrando como “Uma pessoa com IA faz o trabalho de dez” –, por outro, a IA oferece oportunidades inestimáveis para a educação.
O pesquisador pontuou as aplicações positivas da IA no sistema educacional, como modelos baseados na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que geram planos de aula personalizados, adaptados a diferentes perfis de estudantes e que, ao mesmo tempo, aliviam a carga de trabalho do professor. A BNCC, documento normativo que delineia os aprendizados essenciais para a educação básica brasileira, ganha novas ferramentas para sua implementação.
A integração das novas tecnologias digitais tem o potencial de democratizar o acesso a conteúdos de qualidade e de fomentar comunidades de aprendizagem dinâmicas. Além disso, permite a integração do currículo às realidades locais, beneficiando, por exemplo, comunidades indígenas e quilombolas, e pavimentando o caminho para uma educação mais contextualizada, colaborativa e alinhada aos desafios contemporâneos.
Contudo, a jornada para uma educação de excelência ainda esbarra em gargalos significativos, notadamente no modelo de avaliação. Siqueira defendeu que exames como o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) encontram-se defasados, falhando em capturar competências cruciais para o século XXI. Ele propõe a inclusão de habilidades como pensamento crítico, metacognição e a capacidade de resolver problemas complexos. “O estudante precisa saber mobilizar conhecimentos em situações reais. Não basta repetir conteúdo”, enfatizou, apontando para a necessidade de um sistema avaliativo que realmente prepare os alunos para os desafios do mundo real.
A chaga da desigualdade social
Retornando ao cerne de sua apresentação, o pesquisador reiterou que a desigualdade social permanece como o principal entrave à qualidade da educação no Brasil. Ele ilustrou a disparidade com o exemplo do município de São Paulo, onde a expectativa de vida pode oscilar em até 20 anos entre diferentes distritos. “Essa desigualdade começa na infância e se amplia ao longo da vida escolar”, destacou. “Se não reduzirmos isso, será muito difícil melhorar a qualidade da educação”, concluiu, sublinhando que a superação da miséria e da exclusão é pré-requisito para qualquer avanço educacional significativo.
Em um toque final de humanidade, Siqueira invocou o geógrafo Milton Santos para sublinhar a dimensão subjetiva da educação. “Identidade é o sentimento de pertencimento ao que nos pertence”, citou. Ele alertou que muitos estudantes não se reconhecem na escola, sentindo-se estranhos em um ambiente que deveria ser acolhedor. “Há alunos cujo corpo está presente, mas que não se sentem pertencentes. Sem isso, nada faz sentido”, afirmou, destacando o drama de uma educação que falha em gerar conexão e sentido para seus alunos.
O pesquisador finalizou com um apelo veemente pelo maior envolvimento das universidades com a educação básica. “Se a universidade não assumir esse papel, podemos esperar um desastre, que já está em curso”, advertiu Siqueira, colocando a responsabilidade nas instituições de ensino superior para liderar a transformação e evitar o aprofundamento de uma crise que já compromete o futuro do país.
Ivan Siqueira é uma voz reconhecida na área educacional. Doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), lecionou na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP e na rede pública estadual de São Paulo, além de ter sido professor visitante na Kyoto University of Foreign Studies, no Japão. Sua vasta experiência inclui passagens como membro do Conselho Nacional de Educação e do Mercosul Educacional. Atualmente, suas pesquisas focam em educação básica, interdisciplinaridade, tecnologias digitais e inteligência artificial aplicada à educação, com formação complementar em instituições de renome como Stanford, Oxford e MIT.
A 2ª Conferência FAPESP 2026 contou com a participação de Marta Arretche, coordenadora-geral de Ciências, Humanidades e Artes da FAPESP, e de Oswaldo Baffa Filho, coordenador das Conferências FAPESP 2026. A moderação ficou a cargo de Mozart Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados – Polo de Ribeirão Preto (IEARP) da USP. Ramos reforçou a urgência do tema, pontuando que a solução para os desafios do ensino superior passa, inevitavelmente, pela base. “Se não resolvermos a educação básica, não resolveremos os problemas principais do ensino superior”, afirmou, contextualizando que cerca de 59% dos estudantes abandonam a universidade antes de concluir o curso, um dado que acende um alerta sobre a continuidade da formação educacional no país.
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