GUERRA NO ORIENTE MÉDIO

Irã supera Trump e torna guerra insustentável para os EUA, aponta especialista

Imagem do estreito de Hormuz.
O estreito de Hormuz é uma via marítima estratégica crucial para o comércio global de petróleo.

Especialista em Defesa Vinícius Mariano de Carvalho, do King's College, avalia acordo entre Estados Unidos e Irã. Decisão americana de investir US$ 300 bilhões em reconstrução iraniana e encerrar sanções é criticada por ser mais concessiva que acordo de 2015.

Um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, assinado e com detalhes revelados nesta quarta-feira (17), realça a percepção de especialistas em Defesa: o presidente americano, Donald Trump, emerge estrategicamente enfraquecido do conflito. Washington comprometeu um plano de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã, o fim de todas as sanções e a liberação de ativos congelados, em troca da reabertura do estreito de Hormuz e de novas negociações sobre o programa nuclear iraniano.

Críticos apontam que as concessões americanas superam as feitas pelo governo Barack Obama em 2015, quando um acordo para limitar o programa nuclear iraniano foi firmado em troca da suspensão de algumas sanções. "O acordo anterior talvez estava em termos melhores do que essa proposta atual", avalia Vinícius Mariano de Carvalho, professor do Departamento de Estudos de Guerra do King's College, em Londres, e pesquisador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil.

Carvalho observa que Trump demonstra pouca preocupação em justificar as decisões para o público americano, utilizando uma retórica "pouco lógica e racional" para conveniência de sua narrativa. Ele fez essas declarações à Folha à margens da 23ª Conferência de Segurança Internacional do Forte, no Rio de Janeiro.

O especialista considera cedo para determinar se o Irã sai fortalecido, citando "muitas pressões internas". Contudo, não há dúvida sobre o sucesso militar iraniano. "O Irã simplesmente demonstrou que, com modelo de uma defesa de negação, foi capaz de sobreviver a um ataque direto de uma força como a dos EUA, além de mostrar que é capaz de tomar controle do estreito de Hormuz."

A estratégia de defesa de negação, explicou o professor, visou "fazer o custo dos ataques americanos ficar muito mais alto do que os benefícios [da agressão]". "Compreendendo que não teria meios suficientes para confrontar a Marinha dos EUA, [Teerã] fez a guerra ficar cara demais para Washington", completou.

Essa abordagem se valeu de "meios muito novos, como drones e outros veículos não-tripulados", que, apesar de não requererem grandes plataformas, "podem neutralizar o avanço dessas forças". "Ou seja, posso ter três porta-aviões na entrada do estreito de Hormuz, mas não posso correr o risco de utilizá-los e perdê-los por ataques massivos de drones aéreos que não custam nem um centésimo" do valor do alvo, argumentou Carvalho.

O aparente desfecho no Irã ecoa outras incursões americanas no Oriente Médio que falharam contra inimigos mais fracos, como o Talibã afegão. "O Afeganistão foi um exemplo clássico de como uma coalizão formada pela Otan [a aliança militar ocidental liderada pelos EUA] desconsiderou aspectos como a capacidade de resiliência nacional", destacou.

"Além de tudo, aquela campanha teve o fator da ilusão missionária, a ideia de que os países traziam a liberação e um mundo novo sem compreender a perspectiva local. No caso do Irã, isso se tornou mais evidente ainda."

Quanto à posição do Brasil, Carvalho ressalta que, embora a diplomacia brasileira priorize a neutralidade, futuros conflitos globais podem forçar o país a tomar partido. "Essas guerras têm forçado uma série de desequilíbrios globais em cadeias comerciais, de negócios e de informação que farão com que o Brasil tenha de se posicionar em algum momento ou outro. Nós podemos tardar em fazê-lo, mas o país pode ser forçado, por fatores externos, a tomar posições."

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