ISOLAMENTO DIGITAL AGRAVADO

Irã completa 83 dias de apagão digital e amplia isolamento da população

Pessoas no Irã com celulares nas mãos.
Acesso à internet internacional está drasticamente limitado no Irã.

Restrições impostas pelo governo do Irã completam 83 dias, dificultando acesso à internet internacional e impactando a vida de cidadãos e profissionais.

O governo do Irã completou 83 dias consecutivos de bloqueio quase total da internet internacional. A medida, que representa o mais longo apagão digital já registrado em um país amplamente conectado, segundo a organização NetBlocks, foi intensificada após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao território iraniano no fim de fevereiro. A restrição ampliou o isolamento digital da população em meio ao agravamento da repressão política no país.

O bloqueio supera o período de interrupção da internet em Mianmar durante o golpe militar de 2021, que durou 72 dias. Autoridades iranianas e pessoas próximas ao governo justificam a censura digital como uma necessidade de segurança nacional, alegando que forças estrangeiras teriam utilizado rastreamento de celulares e redes sociais para localizar líderes militares iranianos e estimular tentativas de desestabilização interna.

Plataformas como Instagram e WhatsApp já enfrentavam bloqueios parciais antes mesmo da intensificação das restrições. A população recorria a VPNs para acessar conteúdos externos, mas o custo desses serviços disparou com o endurecimento das medidas. Atualmente, iranianos precisam desembolsar entre US$ 5 e US$ 10 mensais por VPNs consideradas confiáveis – um valor expressivo em um país onde o salário mínimo nacional gira em torno de US$ 70 mensais. No ano anterior, o equivalente a US$ 0,20 era suficiente para acessar redes privadas ou obter configurações gratuitas.

Sem acesso a VPNs, os usuários ficam restritos à “internet nacional”, uma rede isolada da internet global com apenas plataformas autorizadas pelo governo iraniano. O buscador Google é um dos poucos serviços estrangeiros parcialmente acessíveis, embora os links internacionais de resultados permaneçam bloqueados, incluindo páginas da Wikipedia.

Os impactos mais severos recaem sobre pequenos empresários, profissionais autônomos e comerciantes que dependiam das redes sociais para gerar renda. Uma professora de inglês relatou a perda de metade de seus alunos após a interrupção das aulas online para estudantes estrangeiros. A artesã Zeynab Dezfouly, que realizava 70% de suas vendas de bolsas e chapéus de crochê pelo Instagram, observou uma queda de 50% em seu faturamento desde o fechamento da internet internacional.

Em resposta às críticas, o governo lançou o programa “Internet Pro”, destinado a empresários aprovados pelas autoridades, oferecendo acesso diferenciado à internet internacional mediante triagem e custos elevados. Opositores apelidaram o modelo de “internet por classes”, enquanto um mercado clandestino de revenda desse acesso privilegiado se desenvolveu.

Setores ligados ao governo, diplomatas e alguns veículos de imprensa utilizam “SIM cards brancos” para acesso irrestrito. Contudo, desde janeiro, o governo estabeleceu punições de prisão e confisco de equipamentos para usuários de conexões não autorizadas da Starlink, empresa de internet via satélite de Elon Musk.

O modelo de controle digital iraniano tem sido comparado ao sistema da China, que se baseia em plataformas nacionais sob vigilância e censura estatal. Jovens iranianos figuram entre os grupos mais afetados por essa política de isolamento.

“Tiraram a nossa felicidade”, lamentou Paniz, uma estudante de 19 anos e usuária frequente de TikTok e Instagram antes das restrições. O endurecimento do controle da internet coincide com o aumento da repressão política. Segundo o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, pelo menos 21 pessoas foram executadas e mais de 4 mil presas desde o fim de fevereiro, sob acusações ligadas à segurança nacional, espionagem ou participação em protestos contra o governo iraniano.

O governo iraniano também intensificou operações contra jornalistas e opositores. Entre os detidos está o jornalista japonês Shinnosuke Kawashima, chefe da sucursal da NHK em Teerã, preso após cobrir manifestações antigoverno, e que aguarda julgamento em prisão domiciliar.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário