RETOMADA DOS IPOS

IPO da Compass movimenta R$ 3,2 bilhões e reaquece bolsa brasileira

Carreta criogênica da Edge transportando GNL do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP)
Carreta criogênica da Edge, empresa da Compass, transporta GNL do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP) para indústrias localizadas em regiões sem acesso a gasodutos. — Foto: Divulgação

Empresa do setor de gás precifica ações em R$ 28 e é avaliada em R$ 20 bilhões na estreia.

A Compass, um dos principais players do setor de gás e energia no Brasil, concretizou sua aguardada estreia na B3 nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, por meio de sua Oferta Pública Inicial (IPO). A operação, que precificou as ações em R$ 28 e movimentará aproximadamente R$ 3,2 bilhões, representa um marco no mercado de capitais brasileiro, pois encerra uma longa pausa de quase cinco anos sem novas listagens. A decisão estratégica não apenas visa reforçar o caixa da Cosan, sua controladora, e reduzir seu endividamento, mas também sinaliza um renovado otimismo dos investidores e o potencial aquecimento da economia nacional.

Com uma atuação abrangente, a Compass controla diversos negócios e opera em várias etapas do mercado de gás natural no Brasil, desde a distribuição e infraestrutura até a comercialização. Seus ativos estratégicos incluem a participação majoritária na Comgás, a maior distribuidora de gás canalizado do país, com forte presença em São Paulo. A empresa também detém participações relevantes em outras distribuidoras, como Sulgás (RS), Compagás (PR), MS Gás e SCGás.

Um dos pilares de sua infraestrutura é o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), localizado no Porto de Santos. Este terminal é crucial para a importação de gás natural liquefeito (GNL), que chega em navios e é convertido de volta ao estado gasoso para abastecer o mercado nacional.

A Compass demonstra seu compromisso com o desenvolvimento energético ao investir constantemente na expansão de sua rede de distribuição, atendendo a residências, comércios e indústrias, com foco especial em regiões de alta atividade econômica. Atualmente, a empresa serve cerca de 3,1 milhões de clientes, operando uma extensa rede de aproximadamente 28 mil quilômetros, por onde são distribuídos 14,4 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Desde 2020, os investimentos da companhia somam cerca de R$ 15 bilhões.

Financeiramente, a Compass encerrou 2025 com um patrimônio líquido robusto de R$ 7,43 bilhões, conforme detalhado no documento apresentado aos investidores para o IPO. A capitalização total ajustada da empresa, que considera seu patrimônio líquido, empréstimos, financiamentos e debêntures, alcançou R$ 25,36 bilhões no final do mesmo ano.

Entenda o IPO da Compass

A Compass será negociada na B3 sob o código “PASS3”. O preço de suas ações foi fixado em R$ 28, no piso da faixa inicialmente estimada (que ia até R$ 35), resultando em uma movimentação total de aproximadamente R$ 3,2 bilhões. A oferta inicial envolveu 89,3 milhões de ações, totalizando cerca de R$ 2,5 bilhões. Devido à forte demanda dos investidores, a operação foi ampliada com lotes adicionais, elevando o valor total em aproximadamente R$ 700 milhões. Com essa estreia, a Compass alcança uma avaliação de mercado de cerca de R$ 20 bilhões.

É importante ressaltar que esta é uma operação totalmente secundária, o que significa que não houve emissão de novas ações. Os papéis ofertados já pertenciam a acionistas atuais, que estão reduzindo suas participações. Dessa forma, os recursos obtidos com a venda não serão direcionados ao caixa da Compass, mas sim para os acionistas vendedores.

Entre os investidores que se desfizeram de parte de suas ações estão a controladora Cosan, fundos da Atmos e da Brasil Capital, além de Bradesco Vida e Previdência e do grupo Bússola. Para a Cosan, a operação serve como uma estratégia para reforçar o caixa do grupo e auxiliar na redução do endividamento. A Cosan informou ao mercado que sua participação na Compass será reduzida de 88% para 77,25%, podendo chegar a 75,37% caso os lotes adicionais de ações também sejam negociados. A oferta envolveu 76,8 milhões de ações, com um lote suplementar que pode contemplar 13,4 milhões de papéis.

A coordenação líder da operação foi realizada pelo BTG Pactual, com o suporte de outras instituições financeiras de peso, como Bank of America, Bradesco BBI, Citi, Itaú BBA, Santander, JPMorgan, XP, BNP Paribas e UBS BB. O IPO foi direcionado exclusivamente a investidores profissionais, como fundos de investimento, bancos e outras instituições financeiras.

Planta de biometano da OneBio, em Paulínia (SP), controlada pela Edge, empresa da Compass. — Foto: Divulgação

Por que a bolsa ficou sem IPOs?

O Brasil atravessou um período de quase cinco anos sem IPOs, sendo a última oferta antes da Compass a da empresa de insumos agrícolas Vittia, em setembro de 2021. Naquele ano, a B3 registrou 45 aberturas de capital.

A retomada do mercado de ofertas públicas começou em janeiro deste ano, mas no exterior, com o banco digital PicPay realizando seu IPO nos Estados Unidos e levantando cerca de US$ 434,3 milhões na Nasdaq.

A principal razão para a escassez de IPOs na bolsa brasileira foi a disparada dos juros nos últimos anos, que elevou a taxa Selic a 15% ao ano, o maior patamar em aproximadamente duas décadas. Atualmente, a Selic está em 14,50% ao ano, com perspectiva de queda. A lógica é clara: juros mais altos tornam aplicações de renda fixa mais atrativas e menos arriscadas, desviando o interesse dos investidores de operações de maior risco, como IPOs.

Além dos juros elevados, a preocupação com as contas públicas do país também contribuiu para a retração. Empresas avaliam cuidadosamente o cenário econômico macro, além de fatores internos e das condições de mercado, antes de lançar uma oferta inicial.

Apesar das incertezas globais, como as tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, e os conflitos no Oriente Médio, a expectativa do mercado aponta para uma queda da taxa Selic para 13% ao ano, o que tende a criar um ambiente mais favorável para esse tipo de operação. Para o fim de 2027, a projeção é de juros em 11% ao ano.

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