CRIME BILIONÁRIO

IDESF Alerta: Contrabando de Emagrecedores Move R$ 2 Bilhões e Financia Facções

Motorista se contradiz e polícia encontra canetas emagrecedoras em fundo falso
Motorista se contradiz e polícia encontra canetas emagrecedoras em fundo falso

Estudo do Idesf projeta mais de R$ 2 bilhões em 2026; Receita Federal registra aumento de 700% nas apreensões em Foz do Iguaçu.

O crime organizado no Brasil encontra uma nova fonte bilionária de financiamento: o contrabando de medicamentos e canetas emagrecedoras na fronteira com o Paraguai. Um estudo recente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), divulgado nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, estima que essa atividade ilegal pode movimentar mais de R$ 2 bilhões apenas neste ano. Além de desviar bilhões da economia formal, a prática coloca em risco a saúde pública brasileira, inundando o mercado com produtos sem qualquer controle sanitário e com alto potencial de danos à população.

O levantamento do Idesf, que tem como base dados atualizados até maio deste ano, projeta que apenas entre 5% e 10% dos produtos ilegais são interceptados pelas autoridades brasileiras. O Paraná, com seus mais de 200 quilômetros de fronteira com o Paraguai e três pontes de acesso internacional no Oeste do estado, surge como uma das principais rotas para essa entrada ilícita de mercadorias.

A situação é particularmente grave em Foz do Iguaçu, cidade estratégica na conexão com o país vizinho. Lá, a Receita Federal registrou um alarmante aumento de 700% nas apreensões de medicamentos para emagrecimento de janeiro a maio de 2026 em comparação com todo o ano de 2025, quando cerca de 8 mil itens foram confiscados. Na última segunda-feira, 11 de maio, por exemplo, a Receita apreendeu mais de 600 emagrecedores na Ponte da Amizade.

O crime de contrabando, que consiste na importação ou exportação clandestina de mercadorias proibidas ou restritas, viola normas sanitárias, aduaneiras e de segurança, sendo punido com reclusão de 2 a 5 anos. No caso dos emagrecedores, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringe a importação de muitos desses produtos do Paraguai e, em uma determinação recente, proibiu a importação e uso da Tirzepatida das marcas Synedica e TG, alvos frequentes de apreensões.

Lucro Exorbitante e Risco à Saúde

Luciano Barros, pesquisador e diretor do Idesf, explica que as organizações criminosas se adaptaram, investindo em produtos de alta demanda e maior valor agregado. “As quadrilhas estão sempre atentas a produtos que tenham lucro alto e venda rápida. Como já dominam a logística do contrabando, conseguem incorporar facilmente novos itens ao mercado ilegal”, ressalta.

O estudo do Idesf destaca que os medicamentos estão entre os produtos mais lucrativos para o crime organizado, com uma margem de lucro que pode atingir impressionantes 415%, perdendo apenas para o cigarro ilegal. A enorme diferença na carga tributária entre Brasil e Paraguai – 5% de impostos sobre medicamentos no Paraguai contra 20% no Brasil – serve como um poderoso incentivo ao mercado ilegal.

Barros enfatiza a dimensão do problema: “Está crescendo muito rápido por causa das canetas. Pode passar de R$ 2 bilhões neste ano de 2026. O medicamento é muito mais fácil de transportar. Diferentemente do cigarro, que ocupa muito espaço, comprimidos e canetas podem ser escondidos em roupas ou mochilas. O que é apreendido representa uma parcela muito pequena do que realmente entra no país”.

Contrabando: Motor do Crime Organizado

Ainda de acordo com o Idesf, o contrabando total entre Paraguai e Brasil movimenta cerca de R$ 60 bilhões por ano, tornando-se uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no país. Esse valor supera a balança comercial oficial entre as duas nações e equivale a cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio.

O cálculo desse mercado ilegal, detalha Luciano Barros, baseia-se na proporção entre o volume apreendido e o que se estima passar pela fronteira. “Se a Receita apreende cerca de R$ 5 bilhões por ano e isso representa algo em torno de 7% do total, chegamos a um volume estimado de R$ 60 bilhões movimentados anualmente”, esclarece.

O cigarro de papel, por sua vez, mantém-se como o principal produto do contrabando, respondendo por quase 39% do valor das apreensões da Receita Federal.

Facções Assumem o Controle

Uma revelação preocupante do estudo do Idesf é que o mercado ilegal deixou de ser uma atividade pulverizada para ser dominada por grandes facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. Essas organizações estruturaram rotas, logística e distribuição, otimizando custos e elevando significativamente os lucros do esquema. “Diferentemente do que ocorria há uma década, quando havia muitos grupos desconectados, hoje as facções conseguiram homogeneizar os custos e liderar sem concorrência a logística de entrega desses produtos”, aponta o levantamento.

Pesquisadores alertam que o baixo risco e a alta lucratividade fizeram o contrabando rivalizar até mesmo com o tráfico de drogas como fonte de renda para essas organizações. Dados do estudo “Follow the Products”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que o cigarro ilegal, com R$ 10,3 bilhões movimentados, se aproxima da rentabilidade da cocaína, que gera aproximadamente R$ 15 bilhões aos criminosos.

A crescente sofisticação e o poder financeiro das facções por meio do contrabando representam um desafio complexo para a segurança pública e a saúde coletiva, exigindo uma resposta coordenada e enérgica das autoridades para proteger a dignidade e o bem-estar da sociedade brasileira.

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