ALERTA HANTAVÍRUS ANDES
Hantavírus Andes: Casos dobram na Argentina e intriga cientistas
Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o aumento; 102 ocorrências na campanha epidemiológica, quase o dobro do período anterior.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre o aumento exponencial de casos de hantavírus Andes na Argentina, onde as ocorrências praticamente dobraram na última campanha epidemiológica, que se estende por 12 meses a partir de junho de cada ano. Essa situação, que intriga a comunidade científica, acende um sinal de alerta global nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, devido à capacidade excepcional da cepa Andes de ser transmitida diretamente entre pessoas, um fenômeno raro que exige vigilância redobrada e causa preocupação entre as populações afetadas.
A cepa Andes do hantavírus tem circulado por décadas na Patagônia argentina e chilena, com sua transmissão primária ocorrendo de roedores selvagens – o rato-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus – para humanos, geralmente em ambientes fechados. Contudo, o recente surto associado ao navio de cruzeiro "Hondius" colocou em evidência a perigosa particularidade desta variante: sua habilidade de se espalhar entre indivíduos.
Esse cenário gera apreensão, especialmente pela rápida e devastadora evolução da doença. Inicialmente, os sintomas podem mimetizar uma gripe comum, acompanhada de diarreia ou vômitos. No entanto, "no quarto dia, em questão de horas, o paciente passa de um estado que parece uma gripe a já estar em um respirador", explica a médica María Ester Lázaro, infectologista aposentada do Hospital Zonal de Bariloche, destacando a urgência e a gravidade do quadro clínico.
A propagação do vírus é um complexo quebra-cabeça ambiental e biológico. Para o biólogo Raúl González Ittig, professor associado de genética de populações da Universidade Nacional de Córdoba, o incremento de casos na Argentina pode estar interligado a uma sequência de fatores ambientais. Ele aponta para chuvas intensas, frequentemente associadas ao fenômeno El Niño, que levam a uma maior vegetação e, consequentemente, a uma vasta disponibilidade de alimento para os roedores. Um aumento na população desses animais não significa um surto inevitável, mas eleva as chances de contato e infecção. "Há mais indivíduos e há maior probabilidade de que algum trabalhador rural se infecte", disse González Ittig à AFP. Em contrapartida, períodos de seca e incêndios, comuns no verão da região, tendem a "fazer diminuir as populações de roedores", explicou o especialista.
Quando a transmissão ocorre entre pessoas, a dinâmica ambiental muda. "Nesse cenário, não é aplicável o que se sabe ou suspeita sobre a associação ou influência de fatores ambientais", esclareceu María Ester Lázaro à AFP. Além dos surtos notórios na Patagônia argentina em 1996 e 2018, e o mais recente no navio de cruzeiro "Hondius", a transmissão entre humanos tem sido relatada de forma muito ocasional na região.
No âmbito da transmissão interpessoal, o epidemiologista Rodrigo Bustamante, também do Hospital Zonal de Bariloche, enfatiza que tal ocorrência da cepa Andes "não é uma regra, mas um evento excepcional que requer contato próximo de menos de um metro durante trinta minutos". Ele reforça que o comportamento do hantavírus Andes é "muito menos transmissível" do que o da covid-19 ou da gripe.
Os cientistas categoricamente rejeitam a hipótese de que uma mutação recente tenha tornado a cepa Andes capaz de ser transmitida entre humanos. "É um vírus muito estável, ao contrário do da covid-19 ou da gripe. Cada hantavírus evoluiu desde tempos ancestrais com seu roedor hospedeiro sem sofrer mutações relevantes", afirmou Lázaro. A questão que permanece em aberto, segundo a infectologista, é "por que o vírus Andes, em vez de gerar um caso isolado ao infectar uma pessoa, é depois capaz de se transmitir a outra em algumas ocasiões e até mesmo gerar cadeias de transmissão com vários elos". González Ittig, por sua vez, sustenta a crença de que "o vírus sempre teve essa propriedade" e que, possivelmente, "os humanos começaram a ocupar os ambientes onde viviam os ratos".
A baixa frequência dos casos na Patagônia é um dos grandes obstáculos para a obtenção de conclusões definitivas, segundo Lázaro. Para preencher lacunas de conhecimento, especialistas do Malbrán, o instituto nacional que estuda doenças epidemiológicas, viajarão na próxima segunda-feira, 18 de maio de 2026, a Ushuaia, capital da Terra do Fogo. Lá, a equipe investigará a presença do rato-de-cauda-longa ou de uma subespécie local, sobre a qual há um debate quanto ao seu potencial papel como reservatório de hantavírus, buscando elucidar aspectos cruciais da propagação do vírus.
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