RISCO FINANCEIRO À VISTA

Governo propõe FGTS contra dívidas e acende alerta de especialistas

Governo propõe FGTS contra dívidas e acende alerta de especialistas

Novo Desenrola permite uso de até 20% do saldo do Fundo; economistas veem risco de reincidência de endividamento.

O governo brasileiro, por meio do Ministério da Fazenda, prepara o lançamento da segunda fase do Programa Desenrola Brasil, conhecida como Desenrola 2.0, com medidas que permitem a utilização de parte do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para o pagamento de dívidas. Anunciadas preliminarmente nesta segunda-feira, 27 de abril de 2026, pelo ministro Dario Durigan, as propostas visam atenuar o cenário alarmante de endividamento familiar, que atinge quase metade dos lares brasileiros, com 49,9% das famílias em débito, segundo dados do Banco Central (BC). Contudo, essa iniciativa levanta sérias preocupações entre economistas, que alertam para o risco de uma solução paliativa que pode comprometer a segurança financeira dos trabalhadores a longo prazo e aprofundar um ciclo de inadimplência.

A possibilidade de usar o FGTS para quitar débitos tem sido alvo de críticas constantes. Especialistas consideram a medida uma solução superficial para um problema socioeconômico muito mais profundo, ou, ainda pior, um fator que pode retroalimentar o ciclo vicioso do endividamento.

"Há um risco significativo de efeito rebote com o Desenrola 2.0", avalia Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos. Ele explica que, ao quitar dívidas, o consumidor recupera seu nome limpo em cadastros como o Serasa, o que imediatamente reabre o acesso a novas linhas de crédito e ao aumento de limites. Embora isso possa estimular o consumo e aquecer a economia no curto prazo, as consequências negativas tendem a surgir rapidamente.

"Em poucos meses, essa pessoa pode voltar a se endividar. E, dessa vez, sem o FGTS como reserva. Ou seja, ela reduz seu patrimônio e transfere riqueza para o sistema financeiro", alerta Patzlaff. Sem uma poupança ou ativos de emergência, a situação pode evoluir para um estado de inadimplência ainda mais grave, conforme aponta Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

"É como enxugar gelo. Medidas paliativas não resolvem uma questão estrutural. O endividamento e a inadimplência tendem a continuar crescendo", afirma Vale, reforçando a visão de que o Desenrola 2.0 pode não apenas falhar em resolver o problema, mas até intensificá-lo.

A facilidade de acesso ao crédito no Brasil contrasta drasticamente com seu elevado custo. A taxa básica de juros (Selic) permanece em 14,75%, e as expectativas para a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), prevista para esta quarta-feira, 29 de abril de 2026, indicam cortes limitados. Enquanto isso, os juros do rotativo do cartão de crédito superam 400% ao ano, com uma taxa de inadimplência próxima de 64%.

"Esperava-se uma queda na Selic, mas o Banco Central deve adotar cautela, especialmente diante da alta do petróleo, que pode pressionar o IPCA para cerca de 5% ao ano", avalia Sergio Vale, sugerindo que o uso do crédito requer extremo discernimento neste cenário.

Essa cautela, entretanto, ainda não se reflete no comportamento médio do consumidor brasileiro, na análise de Ruy Archer, gerente de recuperação de crédito do Sistema Ailos. "Há um problema cultural na gestão do dinheiro. A educação financeira não evoluiu no mesmo ritmo da expansão do crédito", observa.

Para Fabio Murad, economista e sócio-fundador da Ipê Avaliações, a origem da crise de endividamento reside em três pilares fundamentais:

  • Falta de educação financeira prática;
  • Custo do crédito excessivamente elevado;
  • Ambiente econômico desfavorável, marcado por inflação persistente, moeda desvalorizada e alta carga tributária.

"Esse conjunto faz com que pequenas dívidas se transformem rapidamente em bolas de neve", explica Murad, ressaltando o impacto devastador nas finanças pessoais e na dignidade das famílias.

Gabriel Ramalho, especialista em crédito consignado, alinha-se a essa perspectiva, argumentando que soluções duradouras dependem de um enfrentamento direto desses fatores estruturais. "Sem isso, continuaremos presos a ciclos de endividamento, nos quais o consumidor entra, sai e retorna à inadimplência", conclui Ramalho, apontando para a necessidade de políticas mais abrangentes e de longo prazo.

O que se sabe sobre o Desenrola 2.0

No início do mês de abril, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), confirmou à CNN Brasil a intenção do governo de utilizar o FGTS para a renegociação de dívidas. Ele informou que o governo deve destinar cerca de R$ 7 bilhões ao programa, com potencial para beneficiar até 10 milhões de brasileiros.

Com o anúncio oficial previsto para esta semana, algumas diretrizes já conhecidas incluem:

  • Público-alvo: Trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105).
  • Descontos: Podem variar entre 20% e 90% sobre o valor das dívidas.
  • Juros: Compromisso dos bancos de reduzir as taxas de refinanciamento para abaixo de 2% ao mês, com garantia do Tesouro Nacional.

O programa será implementado em fases, começando pelas pessoas físicas. O uso do FGTS será limitado a até 20% do saldo disponível, uma medida que visa balancear o alívio imediato com a preservação de uma parte da reserva do trabalhador.

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