DECISÃO EXECUTIVA
Governo Lula decide expulsar suposto espião russo Sergei Tcherkasov para a Rússia
Suposto agente de inteligência russo, preso no Brasil em 2022 e condenado por falsidade ideológica, será enviado ao país de origem após cumprir pena. Proibição de retorno ao Brasil por 30 anos.
O governo brasileiro decidiu expulsar Sergei Vladimirovitch Tcherkasov, suposto espião russo preso em 2022, e enviá-lo de volta à Rússia. A decisão administrativa foi publicada na edição de segunda-feira, 6 de julho de 2026, do Diário Oficial da União.
A medida, contudo, só será efetivada após o término da pena de cinco anos de prisão por falsidade ideológica que Tcherkasov cumpre em uma penitenciária federal de Brasília, ou mediante liberação pelo Poder Judiciário. Não há, no momento, previsão de quando a expulsão ocorrerá.
Tcherkasov é apontado pela Polícia Federal e pelo FBI como um agente de inteligência russo que utilizava uma identidade brasileira falsa para operar no exterior. Contudo, investigações brasileiras e norte-americanas não encontraram provas de que ele tenha atuado como espião contra o Brasil; seu foco teriam sido os Estados Unidos e países europeus. Tcherkasov nega ser um espião russo.
A expulsão é um ato administrativo discricionário do Poder Executivo, aplicado quando um estrangeiro comete crimes em território nacional. Após ser expulso, Tcherkasov ficará 30 anos proibido de retornar ao Brasil. O governo russo solicitava a extradição de seu cidadão desde 2022, um pedido que já havia sido validado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas aguardava o fim das investigações.
No fim de 2025, a Justiça Federal e o Ministério Público Federal (MPF) indicaram que Tcherkasov não possuía mais pendências jurídicas que impedissem sua extradição. A decisão final cabia à Presidência da República, com o processo sendo conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A BBC News Brasil apurou que a situação foi discutida internamente no ministério, com a defesa do suposto espião e diplomatas russos.
A defesa de Tcherkasov informará a decisão do Ministério da Justiça ao STF. Caso o STF determine a execução da expulsão, Tcherkasov retornará à Rússia. Este desfecho encerraria um inusitado capítulo nas relações entre Brasil, Rússia e Estados Unidos. O Ministério da Justiça informou que não comenta casos em andamento.
Trajetória interrompida
Em abril de 2022, Sergei Tcherkasov foi detido em Amsterdã, na Holanda, ao tentar entrar no país, e posteriormente enviado ao Brasil. Ele tentava atuar como estagiário no Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia. Dois meses antes, em fevereiro de 2022, a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia. Inteligência holandesa e investigações da Polícia Federal e do FBI indicaram que Tcherkasov usava a identidade brasileira falsa de Victor Muller Ferreira.
Segundo a Polícia Federal, não houve elementos que apontassem espionagem contra autoridades, empresas ou instituições brasileiras. O russo chegou ao Brasil em 2010 e utilizava o país e sua identidade brasileira como cobertura para operar no exterior sem levantar suspeitas dos serviços de inteligência estrangeiros. Conseguiu obter documentos brasileiros, como carteira de habilitação, título de eleitor e passaporte, que lhe permitiram passar por estudante e frequentar universidades nos EUA e na Irlanda.
O MPF denunciou que Tcherkasov utilizava "técnicas de inteligência de Estado, recrutamento de colaboradores (...) comunicação deletada, uso de documentos falsos". No Brasil, um inquérito por espionagem foi arquivado. Em 2022, ele foi condenado a 15 anos de prisão por falsidade ideológica, pena posteriormente reduzida para 5 anos.
Operação para recuperar suposto espião
Após a prisão de Tcherkasov no Brasil, o governo russo iniciou uma operação diplomática para recuperá-lo. O Consulado da Rússia em São Paulo ofereceu-se para abrigá-lo, mas o pedido foi negado. Investigações da Polícia Federal revelaram que funcionários da Embaixada Russa deram suporte logístico a Tcherkasov. Em agosto de 2022, a Rússia pediu formalmente sua extradição ao STF, alegando que ele era traficante de drogas, informação que contrariava o indiciamento americano.
O FBI não encontrou evidências de envolvimento de Tcherkasov com tráfico de drogas. Em março de 2023, o Departamento de Justiça dos EUA o acusou formalmente de crimes como atuação de agente estrangeiro sem autorização, fraudes financeiras e obtenção de visto. O governo americano afirmou que Tcherkasov é oficial do GRU e usava a identidade brasileira para se infiltrar em instituições e obter informações estratégicas. O FBI o descreveu como parte da elite de espionagem russa, os "ilegais", enviados para assumir diferentes nacionalidades e personalidades para acessar informações de interesse do governo russo.
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