POUPANÇA PARA PEQUENOS

Governo federal prepara Refis para microempreendedores individuais (MEIs)

Ministro Paulo Pereira fala em evento
Paulo Pereira, ministro do Empreendedorismo, apresentou os detalhes das novas medidas.

Programa visa renegociar débitos tributários com descontos de até 70% e parcelamento estendido. Mudanças no limite de faturamento do MEI também estão em estudo.

O governo federal prepara um programa de renegociação de débitos tributários voltado aos microempreendedores individuais (MEIs) como parte de um novo pacote de estímulo ao empreendedorismo de pequeno porte. A proposta, que deverá ser anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos meses, prevê descontos de até 70% sobre encargos e multas, além de parcelamento em até 145 meses para regularização de dívidas fiscais acumuladas por milhões de trabalhadores formalizados.

A iniciativa foi detalhada pelo ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Paulo Pereira, que classificou a medida como uma extensão da política de renegociação inaugurada pelo Desenrola. Diferentemente do programa voltado a dívidas bancárias, o novo modelo terá foco exclusivo em débitos tributários. O objetivo é permitir que microempreendedores em atraso regularizem sua situação perante a Receita Federal e recuperem benefícios perdidos em razão da inadimplência, incluindo casos de cancelamento do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).

Segundo o ministro, entre 3 milhões e 4 milhões de MEIs possuem pendências relacionadas ao pagamento mensal do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS), cuja contribuição atualmente gira em torno de R$ 80. A proposta estabelece condições mais amplas que as existentes hoje. Enquanto o parcelamento atual permite divisão em até 24 meses, o novo programa prevê prazo máximo de 145 meses para débitos inscritos há mais tempo, com prestação mínima de R$ 25. O limite de renegociação será de R$ 20 mil por contribuinte.

O modelo será estruturado por meio de transações tributárias autorizadas pela Receita Federal. Para dívidas inscritas há mais de um ano, o governo estuda conceder desconto linear de 50% sobre multas, juros e encargos, preservando o valor principal da dívida. Em situações específicas, os abatimentos poderão alcançar 70%, conforme critérios de recuperação fiscal já utilizados pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional em outros programas de regularização.

O refinanciamento integra um pacote mais amplo voltado aos pequenos negócios e que também incluirá mudanças nas regras do enquadramento dos microempreendedores individuais. A principal delas é a elevação gradual do limite anual de faturamento do MEI. Pela proposta em elaboração, o teto passará dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e alcançará R$ 140 mil em 2028. A medida representa uma revisão superior àquela aprovada anteriormente pelo Senado e que ainda aguardava análise definitiva do governo.

De acordo com Paulo Pereira, a revisão do limite foi inicialmente recebida com cautela pela equipe econômica devido às preocupações com o equilíbrio fiscal. Após estudos internos, contudo, o governo concluiu que a atualização poderia ser incorporada ao planejamento orçamentário por representar uma correção dos valores defasados pela inflação e por estimular a formalização e a contratação de trabalhadores. O ministro também associou a mudança ao debate sobre novas formas de organização do mercado de trabalho, incluindo discussões relacionadas à escala 6×1.

O impacto fiscal estimado da ampliação do teto dos MEIs é de R$ 4 bilhões em dois anos. A previsão do governo é de um custo de R$ 2 bilhões em 2027 e outros R$ 2 bilhões em 2028. Segundo o ministro, não haverá criação de novas fontes de receita para compensar a medida. O valor será absorvido dentro da programação orçamentária da União, sem a adoção de mecanismos adicionais de arrecadação.

Apesar de apoiar mudanças para os MEIs, o governo não pretende, neste momento, ampliar as faixas de faturamento do Simples Nacional. Pereira argumenta que o regime apresenta distorções que precisam ser revistas no contexto da implementação da Reforma Tributária. Entre os pontos citados está a aplicação de alíquotas semelhantes para atividades com estruturas de custos muito diferentes. Segundo ele, uma pequena indústria que emprega trabalhadores e possui gastos com insumos, energia e financiamento pode pagar a mesma alíquota que um profissional liberal que atua sozinho e possui margem de lucro mais elevada.

Além das medidas tributárias, o pacote deverá incluir ações voltadas à formação de novos empreendedores. Uma das propostas em análise prevê a ampliação de um programa de bolsas para jovens com perfil empreendedor. Atualmente em formato piloto, a iniciativa poderá alcançar cerca de 10 mil estudantes e demandar aproximadamente R$ 50 milhões em recursos públicos. A intenção é oferecer capacitação e acompanhamento para transformar projetos de negócios em atividades econômicas formais.

Para o governo, o conjunto de medidas busca enfrentar simultaneamente dois desafios: reduzir a inadimplência entre pequenos empreendedores e ampliar as condições para formalização e crescimento dos negócios. A expectativa é que o anúncio ocorra antes das eleições, em um momento em que o Executivo tenta fortalecer políticas voltadas ao segmento responsável por grande parte da geração de emprego e renda no País.

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