DECISÃO FINAL DE EXPULSÃO

Governo decide expulsar espião russo e proíbe seu retorno ao Brasil por 30 anos

Foto de Sergey Vladimirovich Cherkasov.
Sergey Vladimirovich Cherkasov, conhecido como espião russo.

Sergey Vladimirovich Cherkasov, preso desde o fim de 2022, terá que deixar o país e não poderá retornar por três décadas. Decisão foi publicada no Diário Oficial da União (DOU).

O governo brasileiro decidiu pela expulsão do espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, capturado no fim de 2022. A determinação, divulgada nesta segunda-feira, 06/07/2026, no Diário Oficial da União (DOU), impõe a saída do russo do território nacional e o proíbe de retornar ao Brasil por um período de 30 anos, a contar da data da expulsão.

Cherkasov, que utilizava o nome falso de Victor Muller, encontra-se sob custódia na Penitenciária Federal de Brasília desde sua prisão, cumprindo pena de 15 anos pelo uso de documento falso. A decisão de expulsão foi formalizada por Alessandra Teixeira de Araújo, coordenadora de processos migratórios, com base no artigo 54 da Lei de Imigração (Lei nº 13.445).

A publicação no DOU especifica que a expulsão ocorrerá após o cumprimento integral da pena de encarceramento no Brasil ou mediante autorização judicial para liberação antecipada. Essa medida segue análises do Ministério da Justiça, que considerou um parecer do juiz Frederico Botelho de Barros Viana, da 15ª Vara Federal, informando a inexistência de outros processos contra o russo no Distrito Federal.

O Ministério da Justiça também buscou atualizações sobre o caso junto à Polícia Federal (PF), à Justiça Federal de São Paulo, à 4ª Vara do Rio de Janeiro, ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3). A definição sobre o destino de Cherkasov foi marcada por disputas entre Estados Unidos e Rússia.

Moscou solicitou a extradição do espião sob acusação de tráfico internacional. No entanto, a PF avaliou que o pedido russo poderia ser uma estratégia para reaver o agente. Paralelamente, informações da CIA (agência de inteligência americana) foram enviadas ao Brasil, detalhando a atuação de Cherkasov em solo estadunidense, onde teria agido com nome falso e praticado espionagem durante um período de estudos universitários.

A prisão de Cherkasov se insere no contexto da descoberta de uma ampla rede de "fábrica de espiões russos" no Brasil, com ramificações na América Latina, operando com o país como base por mais de uma década. Dez investigados foram identificados em 2022, e as investigações prosseguem sobre um indivíduo ainda em apuração em 2025 por uso de documentos falsos.

Suspeita-se que esses agentes utilizavam o Brasil como território neutro para repassar informações de interesse à Rússia. As investigações da Diretoria de Inteligência da PF revelaram disfarces complexos, incluindo um agente atuando como joalheiro em Brasília, outro como estudante de forró em São Paulo e uma mulher que se passava por modelo. O objetivo era criar identidades críveis para facilitar a aceitação em outros países como cidadãos brasileiros.

Nove dos dez investigados já deixaram o Brasil após serem descobertos. Cherkasov permaneceu, sendo transferido para a Penitenciária Federal em Brasília após nove meses detido na sede da PF em São Paulo. Ele foi originalmente preso ao tentar embarcar para Amsterdã, na Holanda, em 2022, com um passaporte brasileiro falso, após residir em São Paulo desde 2010 sob a identidade de Victor Muller. Ao ser devolvido ao Brasil pelas autoridades holandesas, foi detido por uso de documento falso, levando à abertura de inquéritos por lavagem de dinheiro e espionagem.

A PF aponta que a intenção de Cherkasov era acessar informações sobre a Rússia no Tribunal Penal Internacional, órgão do qual o país comandado por Vladimir Putin não é membro. O caso ganha relevância diante do mandado de prisão em aberto contra Putin por crime de guerra. A investigação levantou documentos, imagens e áudios que confirmam a ligação de Cherkasov com a rede, incluindo mensagens a superiores na Rússia sobre seu trabalho no Tribunal Penal Internacional e o recebimento de R$ 35 mil, provenientes de funcionários do governo russo no Brasil.

A rede de espionagem contava com apoio do consulado russo no Rio de Janeiro e da Embaixada da Rússia em Brasília. Um dos investigados ocupava o cargo de adido comercial no consulado e deixou o Brasil antes de prestar depoimento. As investigações, em andamento na PF em Brasília, indicam que a rede utilizou outros países da América Latina, como Argentina e Venezuela, como bases de operação, com características semelhantes de disfarce e uso de documentos falsos para dificultar a identificação.

Um casal russo com filhos argentinos, descoberto em 2023, utilizou disfarces para ingressar na Eslovênia, membro da União Europeia e da Otan. Ao retornarem à Rússia, foram recebidos por Vladimir Putin no aeroporto. As informações são de Elijonas Maia, sob supervisão de Lucas Schroeder.

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