VOTO DE PROTESTO

Eleições: quando brasileiros elegeram animais como forma de protesto político

Imagem ilustrativa de cédulas de votação e animais simbolizando votos de protesto.
Eleitores brasileiros utilizavam o voto em papel para registrar protestos políticos.

Antes da urna eletrônica, eleitores utilizavam cédulas de papel para sufragar nomes inusitados, transformando animais em símbolos de insatisfação popular.

Brasileiros já utilizaram animais como candidatos em cédulas de papel para externar críticas à classe política e aos rumos da administração pública. A prática, que ganhou força entre 1959 e 1988, permitia que o eleitor escrevesse livremente qualquer nome, conferindo um caráter de protesto social a votos que, tecnicamente, eram computados como nulos.

Embora a iniciativa não alterasse o resultado oficial das eleições, a contagem desses papéis oferecia um termômetro preciso do descontentamento da população. Com a implementação da urna eletrônica, a possibilidade de escrever nomes em cédulas foi extinta, alterando a dinâmica das manifestações eleitorais para o voto em branco, nulo ou a abstenção.

Cacareco e o marco paulistano

Em São Paulo (SP), o rinoceronte Cacareco tornou-se um dos episódios mais emblemáticos desse período. Impulsionada pelo jornalista Itaboraí Martins como resposta às denúncias de corrupção, a candidatura do animal superou 100 mil votos, vencendo todos os outros 540 candidatos. Segundo o Museu de Anatomia Veterinária (MAV) da USP, o animal era uma das grandes atrações do Zoológico de São Paulo à época.

Crise sanitária e o Aedes aegypti

Em Vila Velha (ES), o cenário de crise sanitária em 1987 levou a população a um protesto inusitado. O mosquito Aedes aegypti recebeu 29.668 votos, superando o candidato eleito, Magno Pires (PT), que obteve 26.633 votos. Para especialistas, como João Paulo dos Santos, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o gesto ironizava a ausência do poder público frente às demandas de saúde da cidade.

A ascensão do Macaco Tião

O protesto atingiu sua marca mais expressiva no Rio de Janeiro (RJ) em novembro de 1988. Em um momento de profunda crise econômica e descrença nas instituições, o Macaco Tião, figura popular do zoológico, alcançou cerca de 400 mil votos. A campanha, lançada pela revista Casseta Popular, refletiu a frustração do eleitorado com o cenário político daquele momento histórico.

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