INDÚSTRIA DA DESINFORMAÇÃO
Golpistas utilizam programas sociais como iscas em anúncios falsos na Meta
Estudo do NetLab/UFRJ identifica 860 peças enganosas que simulam serviços oficiais para atrair vítimas nas redes sociais
Golpistas têm utilizado nomes e logotipos de programas e serviços públicos brasileiros para enganar usuários nas plataformas da Meta. O esquema foi mapeado por um estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ), que revela como criminosos se apropriam da confiança do cidadão em políticas como o Valores a Receber, Brasil Sorridente e Minha Casa Minha Vida.
Entre janeiro e março de 2026, pesquisadores identificaram 860 anúncios fraudulentos espalhados pelo Facebook e Instagram, publicados por 152 páginas distintas. A investigação aponta para uma estrutura organizada, descrita pelos especialistas como uma indústria da desinformação, que explora a vulnerabilidade de pessoas em busca de benefícios financeiros.
Para Débora Salles, coordenadora-geral de pesquisa do NetLab, o volume encontrado é apenas a ponta do iceberg, dado que a falta de transparência da Meta impede uma mensuração precisa do alcance total desses conteúdos. "Quando envolve recebimento de dinheiro, existe uma questão de ser mais atrativo. Isso funciona como um chamariz para a possível vítima", explica a pesquisadora.
O levantamento detalha que o serviço mais visado é o Valores a Receber, do Banco Central, presente em 345 anúncios. As peças frequentemente direcionam os usuários a sites falsos que simulam canais oficiais do governo, por vezes cobrando taxas indevidas ou gerando lucro por meio de cliques em publicidade abusiva. Em diversos casos, os golpistas utilizam elementos visuais de veículos de imprensa, como o g1, para conferir legitimidade às promessas falsas.
O uso de tecnologias avançadas também se tornou um pilar do esquema: 45,8% dos anúncios analisados utilizavam inteligência artificial. Vídeos manipulados, conhecidos como deepfakes, incluem figuras públicas como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para reforçar a credibilidade dos golpes. Além da manipulação visual, a rede opera de forma transnacional, com parte dos anúncios sendo administrada a partir da China, evidenciando falhas sistêmicas na fiscalização e na remoção de conteúdos nocivos por parte da Meta.
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