DIGNIDADE NO PARTO
Fundação Oswaldo Cruz expõe sofrimento em partos do SUS
Levantamento preliminar revela que só 8,6% das gestantes na rede pública têm acesso à analgesia; desigualdades raciais e de escolaridade são alarmantes.
A Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com a Embaixada da França, revelou nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, dados preliminares alarmantes e lançou um projeto-piloto crucial para enfrentar a baixa oferta de anestesia em partos vaginais pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa, que visa criar protocolos e ampliar o acesso à analgesia em maternidades públicas, busca combater o sofrimento físico intenso enfrentado por milhares de mulheres no Brasil, expondo uma grave questão de dignidade e equidade na saúde materna.
O levantamento preliminar divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz aponta que apenas 8,6% das mulheres que realizam parto vaginal na rede pública recebem anestesia para alívio da dor durante o trabalho de parto. Este dado integra um projeto-piloto desenvolvido em colaboração com a Embaixada da França, com o objetivo de expandir o acesso à analgesia obstétrica em maternidades públicas do País.
A iniciativa será implementada inicialmente em dez unidades de saúde e prevê a criação de protocolos específicos para o atendimento de mulheres durante o trabalho de parto. O propósito central é ampliar a oferta de anestesia em partos vaginais e, com isso, reduzir o sofrimento físico desnecessário enfrentado por pacientes na rede pública, garantindo-lhes um parto com mais conforto e respeito.
Os números apresentados pela pesquisa, que contemplou o período entre janeiro e abril de 2026, indicam que o acesso à analgesia obstétrica ainda é extremamente restrito no Brasil, principalmente para mulheres atendidas pelo SUS. Foram registrados cerca de 205 mil partos vaginais na rede pública neste período, mas somente aproximadamente 17 mil contaram com o benefício da anestesia. Os dados também revelam desigualdades sociais e raciais preocupantes: enquanto mulheres brancas têm um percentual de acesso à anestesia de 47,6%, entre mulheres pretas e pardas, o índice despenca para 39,5%.
A médica anestesiologista Carma Leal coordenou a pesquisa, que faz parte de uma série de ações voltadas à saúde materna desenvolvidas pela instituição. Segundo os especialistas envolvidos no projeto, a limitação do acesso está diretamente ligada a fatores como a escassez de anestesistas, a estrutura hospitalar insuficiente e a ausência de protocolos específicos para a aplicação da analgesia durante o parto normal.
O projeto, que conta com o apoio da Embaixada da França no Brasil, basear-se-á em experiências exitosas adotadas em hospitais franceses, onde o acesso à analgesia em partos vaginais é consideravelmente mais amplo. A expectativa é que, após esta fase inicial de testes, os protocolos desenvolvidos sejam expandidos para outras maternidades públicas brasileiras, impactando positivamente a experiência de milhares de mulheres.
A dimensão humana dessa realidade é palpável em depoimentos como o da advogada Evelin Cristina Pereira, de 37 anos. Ela relatou uma experiência traumática durante a gestação e o parto de seu filho Ravi, hoje com dois anos. O atendimento recebido por Evelin durante o trabalho de parto foi marcado por um sofrimento físico intenso e desnecessário.
“Algumas horas depois, durante o trabalho de parto, quando eu não aguentava mais a dor e não conseguia fazer força, a doula solicitou analgesia. Durante o parto vaginal, expliquei às médicas a anestesia peridural por ter sofrido com a dor e medo da cesárea”, contou Evelin, evidenciando a luta para ter seu pedido atendido.
A advogada afirmou que só recebeu anestesia após muita insistência de sua equipe de apoio e da família. Segundo ela, o procedimento foi realizado apenas quando já estava em estágio avançado do trabalho de parto. “Eu já não estava mais conseguindo respirar. Eles falam que não dói, mas dói”, declarou, sublinhando a intensidade de sua dor e a negligência percebida.
A experiência de Evelin ecoa os relatos de muitas outras mulheres que enfrentam barreiras para obter analgesia durante o parto vaginal na rede pública. Especialistas apontam para uma cultura hospitalar que, por vezes, naturaliza a dor do parto, tratando-a como uma parte inerente e obrigatória da experiência materna, em vez de um sofrimento que pode ser aliviado com segurança.
O médico anestesiologista Rômulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), reforça que a resistência ao uso da anestesia no parto ainda se vincula a questões culturais e estruturais arraigadas no sistema de saúde.
“A Febrasgo defende a analgesia. Não queremos obrigar ninguém a querer, mas se a mulher escolhe a analgesia, ela precisa ser respeitada”, afirmou Negrini, enfatizando o direito fundamental à escolha e ao alívio da dor. Segundo ele, a ampliação do acesso depende diretamente da criação de protocolos específicos dentro das maternidades públicas e de um treinamento adequado das equipes médicas.
Negrini ressaltou ainda que o conceito de "parto humanizado" deve incluir o direito à anestesia, quando desejado pela parturiente. A ausência de analgesia não significa, necessariamente, um parto mais natural ou seguro. Pelo contrário, a dor intensa pode gerar um sofrimento físico e emocional profundo para as pacientes, impactando sua recuperação e a memória do nascimento.
“O uso da analgesia no parto vaginal é seguro e não interfere no desenvolvimento do parto quando realizado corretamente”, afirmou o especialista, desmistificando concepções errôneas. A persistente baixa oferta do procedimento no Brasil, concluiu ele, está intrinsecamente relacionada à distribuição desigual de anestesistas pelo País e à falta de investimento em infraestrutura e formação.
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