GREVE NA SAMSUNG

Funcionários da Samsung ameaçam greve e buscam parte da fortuna bilionária impulsionada pela IA

Funcionários da Samsung Electronics em protesto.
Funcionários da Samsung Electronics ameaçam greve buscando maior participação nos lucros impulsionados pela IA.

Acordo preliminar evitou paralisação histórica que poderia impactar fornecimento global de chips de memória em meio à alta demanda por IA. Sindicatos exigem maior participação nos lucros.

Dezenas de milhares de funcionários da Samsung Electronics no Sul ameaçaram entrar em greve, buscando uma fatia dos lucros recordes da empresa, impulsionados pela inteligência artificial (IA). A mobilização, que poderia interromper o fornecimento de chips essenciais para a indústria de IA, culminou em um acordo preliminar na quinta-feira, 22/05/2026, horas antes da paralisação ser iniciada. A decisão representa uma vitória para os trabalhadores, que exigiam melhores condições salariais frente aos resultados financeiros expressivos da companhia.

O acordo, caso aprovado pelos membros do sindicato, evitará o que seria a maior greve da história da Samsung, mobilizando mais de 48.000 trabalhadores, quase 40% de sua força de trabalho na Coreia. A maioria dos funcionários envolvidos atua na produção de chips de memória, componentes vitais para o hardware de IA fabricado por gigantes como Nvidia e AMD. A potencial interrupção na produção gerou preocupação no governo sul-coreano e na indústria tecnológica global, visto que a receita da Samsung representa mais de 12% do PIB do país.

A Samsung é uma das três maiores fabricantes mundiais de chips de memória, componentes em alta demanda devido à expansão sem precedentes de data centers e ao treinamento de modelos de IA. O primeiro-ministro da Coreia do Sul, Kim Min-seok, expressou no domingo a gravidade da situação, afirmando que "qualquer interrupção na produção de semicondutores da Samsung iria muito além das perdas para um único grupo corporativo, deixando cicatrizes profundas em toda a economia nacional".

A disputa salarial ocorre em um momento em que a IA remodela o setor de tecnologia, com empresas como Meta, LinkedIn, Amazon e Snap anunciando demissões e reestruturações focadas na área. No último trimestre, a Samsung registrou lucros que dispararam mais de 8,5 vezes em comparação com o ano anterior, superando o lucro operacional de todo o ano de 2025.

Os sindicatos buscavam a eliminação do teto de bônus de 50% do salário anual, a destinação de 15% do lucro operacional para bônus e a extensão dessas benesses para além de 2026. A mobilização foi intensificada pela diferença nos bônus oferecidos pela rival SK Hynix, que, após registrar lucros recordes, implementou uma nova estrutura que permite bônus equivalentes a quase 3.000% do salário base para alguns funcionários, com uma média de 700 milhões de won (US$ 465.000) anuais.

O sindicato da Samsung declarou no mês passado que "a indústria de semicondutores enfrenta agora uma guerra para garantir talentos globais", citando a SK Hynix e empresas estrangeiras que atraem engenheiros com ofertas. No acordo preliminar, a Samsung concordou em eliminar o teto de bônus e destinar 10,5% dos lucros de desempenho empresarial para bônus na divisão de semicondutores. A empresa reconheceu que "o acordo chegou mais tarde do que o esperado" e prometeu "trabalhar para construir uma relação de gestão trabalhista mais madura e construtiva".

A disputa reacendeu o debate nacional sobre a distribuição de riqueza em um cenário de hiperpolarização, como apontou Jo Geun-jun, do grupo de pesquisa trabalhista Anyoneunion. Ele descreveu um contraste entre o crescimento de trabalhadores sem segurança e proteções e aqueles em grandes conglomerados desfrutando de bônus sem precedentes.

A ameaça de greve ocorreu em um período de estresse excepcional na cadeia de fornecimento de semicondutores. Gigantes como Google e Amazon buscam desesperadamente processadores de IA. Chips de memória, antes considerados commodities de baixa margem, tornaram-se indispensáveis, facilitando transferências e armazenamento de dados em alta velocidade. A escassez desses componentes, segundo Simon Woo, do Bank of America, pode persistir até 2028, com a SemiAnalysis prevendo uma duplicação dos preços até o final de 2026.

A Samsung, ao lado de SK Hynix e Micron Technology, é crucial na cadeia global. Embora a SK Hynix lidere o mercado de memória para IA com 57% de participação, seguida pela Samsung com 22% e Micron com 21% (dados do quarto trimestre do ano passado), a recuperação da Samsung após um período de queda, impulsionada pela demanda por chips de memória, a coloca em posição estratégica. O acordo provisório impulsionou as ações da empresa, mas a possibilidade de uma greve, caso os membros rejeitem o acordo, ainda paira. Ray Wang, analista da SemiAnalysis, alertou que "em um ambiente já com oferta restrita de memória, uma interrupção em um grande fornecedor de memória certamente só terá impacto negativo para a indústria de IA", podendo agravar a escassez e sustentar a alta de preços.

Uma liminar concedida na segunda-feira, no entanto, determinou que os trabalhadores envolvidos em operações de segurança na produção de chips devem manter o nível normal de pessoal, atenuando parte do risco de paralisação total.

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