DIGNIDADE NA JORNADA
Fim da escala 6x1: Mulheres terão mais dignidade e acesso ao trabalho, afirma ministra Márcia Lopes
Ministra das Mulheres enfatiza que a proposta governamental de reduzir a jornada para 40 horas semanais é crucial para combater a sobrecarga feminina e impulsionar a equidade no mercado. Congresso Nacional debate o Projeto de Lei, enquanto movimentos populares reforçam a pressão.
Em meio à efervescência das manifestações de 1º de Maio, Dia do Trabalhador, o governo federal impulsiona no Congresso Nacional um Projeto de Lei que busca o fim da escala de trabalho 6x1, substituindo-a por uma jornada de 40 horas semanais com dois dias de descanso remunerado e sem cortes salariais. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, defende a medida com veemência, destacando nesta sexta-feira, 01 de maio de 2026, que a mudança representa uma "exigência do nosso tempo", essencial para combater a histórica sobrecarga imposta às mulheres e promover sua dignidade, saúde e acesso pleno ao mercado de trabalho. A iniciativa visa a transformar a realidade de milhões de trabalhadoras, abrindo caminho para maior equidade e qualidade de vida.
A ministra ressalta que a alteração permitirá que as mulheres "cuidem melhor da saúde, das relações familiares, territoriais". Para ela, essa é uma "exigência do nosso tempo", crucial para o bem-estar e a inserção feminina no mercado.
Tramitação no Congresso Nacional
Os comentários da ministra Márcia Lopes sobre a mudança na jornada de trabalho surgiram em uma entrevista exclusiva à Agência Brasil na última quarta-feira, 29 de abril de 2026, após participar de um evento na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro. No centro das discussões está o Projeto de Lei (PL) 1838/2026, de iniciativa do governo Lula, que visa a reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, assegurando dois dias de descanso remunerado sem perdas salariais.
O governo solicitou regime de urgência para a tramitação do PL, que até a tarde de quinta-feira, 30 de abril de 2026, ainda aguardava despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para iniciar sua análise na Casa. Além do Projeto de Lei, a Câmara também analisa duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs 221/19 e 8/25) que visam ao mesmo objetivo, e instalou uma comissão especial para tratar do tema na última quarta-feira, 29 de abril de 2026.
O impacto da escala 6x1 nas mulheres
Ao defender a visão favorável ao fim da escala 6x1, a ministra Márcia Lopes é categórica ao afirmar que as mulheres são as principais prejudicadas pela jornada atual. "Não há dúvida disso", reforça.
A ministra aponta que a sociedade, com sua "característica machista", historicamente impôs às mulheres "dupla, tripla jornadas de trabalho". Elas, além do trabalho remunerado, dedicam grande parte de seu tempo ao trabalho não remunerado, como cuidados com a casa e os filhos. "Quando elas terminam uma etapa do dia de trabalho, apesar do cansaço, elas dão início a outras etapas, seja estudando, cuidando das suas casas, dos filhos, dos afazeres", explica.
Márcia Lopes acredita que o fim da escala 6x1 não apenas alivia a sobrecarga, mas também impulsiona a empregabilidade feminina e combate a desigualdade de gênero. "Ao alcançar o fim da escala 6x1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores", enfatiza, mencionando especificamente as mulheres periféricas e negras como grandes beneficiadas.
Desigualdade Salarial: um panorama persistente
A urgência do debate se alinha com dados alarmantes. O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego na última segunda-feira, 27 de abril de 2026, revelou que, no setor privado com mais de 100 empregados, as brasileiras recebem, em média, 21,3% a menos que os homens. Isso significa que, para cada R$ 1.000 de salário masculino, a mulher recebe R$ 787.
A Lei nº 14.611, de julho de 2023, já estabelece a igualdade salarial para mesma função, exigindo que empresas com 100 ou mais empregados divulguem salários e adotem medidas para garantir essa paridade.
Reflexos positivos e contrapontos econômicos
A ministra Márcia Lopes projeta que o fim da escala com um único dia de descanso trará benefícios não só para os trabalhadores, mas também para as empresas, com a esperada redução do absenteísmo, e para a economia nacional. "Traz muito mais dignidade, traz tempo livre que será utilizado para, inclusive, ir ao cinema, visitar museu, poder se alimentar melhor, organizar a sua comunidade, o seu território, de poder empreender", lista.
No entanto, a proposta gera controvérsia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima um prejuízo de R$ 76 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) e uma alta média de 6,2% nos preços, afetando a competitividade industrial. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) prevê um aumento de 21% nos custos da folha salarial e uma pressão inflacionária de até 13% no repasse aos consumidores.
Em contrapartida, um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, sugere que os custos de uma eventual redução para 40 horas semanais seriam absorvíveis pelo mercado de trabalho, comparáveis aos impactos de reajustes históricos do salário mínimo.
Mobilização e expectativa
A ministra, que também preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher – um importante fórum de participação da sociedade civil no governo –, revela que grupos de mulheres já articulam com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para pressionar pela aprovação. "As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso", assegura.
Márcia Lopes reconhece a existência de "posicionamentos contrários", mas manifesta otimismo: "tenho impressão que, muito em breve, vamos conquistar mais esse direito no Brasil", conclui.
As declarações da ministra foram proferidas após um evento onde o BNDES anunciou um investimento de R$ 80 milhões em iniciativas que apoiam mulheres empreendedoras e o "trabalho do cuidado" em comunidades periféricas, como cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas. Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, presente no encontro, corrobora a ligação direta entre o fim da escala 6x1 e a melhoria da qualidade de vida feminina. "A luta para que a gente mude essa situação da escala 6x1 é exatamente ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado", pontuou.
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