DEBATE FILOSÓFICO ATUAL
Filósofo David Benatar questiona políticas pró-natalistas e vê reprodução como esquema de pirâmide
Enquanto líderes globais buscam aumentar taxas de natalidade, o professor David Benatar defende que trazer seres sencientes à existência é moralmente condenável devido ao sofrimento inevitável.
Líderes globais, como o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, e figuras como Donald Trump, Xi Jinping e Giorgia Meloni, têm impulsionado agendas focadas no incentivo à natalidade. O debate, contudo, ganha um contraponto crítico a partir de uma perspectiva filosófica que questiona se o imperativo da reprodução é, de fato, a escolha mais ética.
O sul-africano David Benatar, professor emérito da Universidade da Cidade do Cabo e principal expoente do antinatalismo, contesta a ideia de que a humanidade deva seguir seus instintos reprodutivos. Em entrevista exclusiva à Folha, realizada em 13/07/2026, o filósofo sustenta que o sofrimento é inerente à condição de qualquer ser senciente — humano ou animal — e que a procriação expõe indivíduos a danos inevitáveis.
A tese central de Benatar, detalhada em obras como "Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence" (2006), baseia-se na "assimetria axiológica". Segundo ele, a ausência de prazer em quem nunca nasceu não representa uma privação real, mas a existência garante a exposição a dores, doenças e à própria morte. "O simples fato de sermos programados evolutivamente de certa maneira não significa que isso seja moralmente aceitável", afirma o autor.
Ao analisar as políticas de incentivo a nascimentos, Benatar descreve o sistema como uma espécie de esquema de pirâmide. O filósofo argumenta que o modelo exige a criação constante de novos seres para sustentar os anteriores, perpetuando um ciclo onde o sofrimento das gerações futuras é o custo oculto. Para ele, a extinção gradual da espécie, se ocorresse, seria um caminho que evitaria dores severas aos que nunca viriam a existir.
Apesar da contundência de suas ideias, Benatar não endossa o suicídio como solução, embora defenda, em princípio, o direito à morte assistida em casos de sofrimento insuportável e clinicamente irreversível. O filósofo mantém uma postura de reflexão ética sobre a senciência, reforçando que o debate sobre natalidade não deve se limitar apenas a questões de Estado ou estratégias econômicas, mas deve considerar a qualidade de vida e o impacto moral de trazer novos indivíduos a um mundo marcado pela vulnerabilidade.
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