EBOLA NO CONGO
FICV estima que surto de Ebola no Congo se estenda por 1 ano e alerta para subnotificação de casos
A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho adverte que o pico de infecções ainda não foi atingido. Falta de dados e dificuldades de teste mascaram a real dimensão da epidemia, que já se espalhou para Uganda.
A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo pode se estender por mais um ano e ainda não atingiu seu pico de casos. O alerta foi divulgado nesta terça-feira, 16/06/2026, pela FICV (Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho). A organização atribui a preocupação à insuficiente capacidade de diagnóstico, que dificulta o monitoramento da extensão real do surto e impacta diretamente a dignidade dos afetados, que podem não receber o cuidado necessário a tempo.
O surto atual é provocado pela cepa rara Bundibugyo, para a qual não existem vacinas ou tratamentos aprovados. O governo da República Democrática do Congo declarou o estado de surto em 15 de maio, o que levou a OMS (Organização Mundial da Saúde) a acionar o nível máximo de alerta sanitário internacional dois dias depois. O vírus já cruzou a fronteira e atingiu a vizinha Uganda, que contabiliza 19 casos confirmados e 2 mortes.
CHOQUE DE DADOS E SUBNOTIFICAÇÃO
O monitoramento da epidemia no terreno expõe um forte desencontro estatístico entre as entidades internacionais. O balanço oficial das autoridades congolesas compilado pelo MSF reporta mais de 650 casos confirmados e mais de 130 mortes. Por outro lado, o relatório epidemiológico mais recente da OMS, com dados computados até 14 de junho, aponta um cenário ainda mais grave: um total cumulativo de 808 casos confirmados em laboratório e 192 óbitos, o que representa uma taxa de letalidade de 23,8%. Essa disparidade e a flutuação dos indicadores oficiais confirmam que os números provavelmente representam apenas uma fração da realidade, mascarada pela extrema dificuldade de testagem e pelo impacto na vida de quem aguarda diagnóstico.
INFECTADOS SEM MONITORAMENTO
A doença se concentra majoritariamente no leste da República Democrática do Congo, espalhando-se pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul. De acordo com o mapeamento da OMS, o vírus já se ramificou por 31 zonas de saúde. A região de Ituri é o principal epicentro, concentrando cerca de 95% das notificações. A coordenadora médica de emergência de MSF na RDC, Kate White, revelou que a maioria dos centros de tratamento locais está sobrecarregada e que "muitos dos nossos pacientes chegam em estágio avançado da doença e a maioria nunca foi identificada ou monitorada como contato antes de buscar atendimento". Isso evidencia o apagão no rastreamento de possíveis novos infectados e o risco de contágio sem o devido acompanhamento.
Investigações epidemiológicas da OMS confirmam que a transmissão já ocorria silenciosamente de forma comunitária por várias semanas antes que os primeiros casos fossem validados e reportados nos novos distritos, impactando a capacidade de resposta e a segurança dos indivíduos.
GARGALO LABORATORIAL
A infraestrutura precária e a insegurança provocada por conflitos armados crônicos no leste do país inviabilizam o controle epidemiológico. Apesar da chegada de centenas de kits de testagem rápida desenvolvidos especificamente para a cepa Bundibugyo, o acesso a esses recursos é limitado em áreas instáveis. Em Kivu do Norte, por exemplo, há apenas um laboratório disponível para analisar as amostras de sangue. Devido à falta de um sistema automatizado para o envio dos laudos, o processamento e a entrega dos resultados às unidades de saúde podem demorar quase uma semana. Sem testes rápidos e amplamente distribuídos, torna-se inviável detectar os casos cedo o suficiente para conter o contágio, prolongando o sofrimento e a incerteza.
DESCONFIANÇA E AGRESSÕES
O chefe de operações da FICV, Bruno Michon, destacou que a desinformação e a resistência das comunidades locais são os principais obstáculos para frear o contágio. Nas últimas semanas, voluntários da Cruz Vermelha que atuam em sepultamentos seguros foram alvos de insultos, ameaças e agressões físicas durante o trabalho de campo. "A confiança não é um aspecto secundário na resposta ao Ebola. A confiança é fundamental. Sem confiança, não podemos detectar os casos a tempo", afirmou Michon, ressaltando como a desconfiança mina os esforços de saúde pública e afeta a segurança dos profissionais e das comunidades.
O coordenador de emergência de MSF no país, Frederic Lai Manantsoa, acrescentou que a janela de ação para controlar a epidemia está se estreitando e cobrou uma mudança metodológica no diálogo com a população civil. "Implementar atividades e explicar a doença não é suficiente para construir confiança – é necessário ouvir as preocupações das pessoas, e as comunidades devem ajudar a moldar a resposta", avaliou.
SISTEMA DE SAÚDE EM COLAPSO
A crise sanitária do ebola sobrepõe-se a décadas de deslocamentos forçados da população e lacunas crônicas no sistema de saúde congolês. As organizações humanitárias ressaltam a importância de não sufocar o atendimento médico de rotina em prol da resposta exclusiva à epidemia, pois a manutenção de serviços básicos fortalece a vigilância contra o Ebola nas comunidades. "Mulheres grávidas ainda precisam de cuidados maternos, crianças ainda precisam de vacinação e pacientes ainda necessitam de tratamento para malária e cólera", alertou Kate White. Atualmente, o MSF opera em 16 das 26 províncias da República Democrática do Congo, prestando suporte cirúrgico a feridos de guerra, tratando a desnutrição e combatendo surtos paralelos de doenças evitáveis, como o sarampo e a cólera, demonstrando a fragilidade do sistema que precisa de atenção integral.
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