NOVO MAPA FINANCEIRO
Facções criminosas expandem atuação para economia formal, aponta PF
Grupos como PCC e Comando Vermelho investem em combustíveis, agronegócio e imóveis, misturando recursos ilícitos com negócios legítimos e elevando o risco de violência empresarial.
Grandes facções criminosas brasileiras deixaram de se concentrar unicamente no tráfico de drogas e agora ampliam sua influência em setores da economia formal. Grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) expandem sua presença em áreas como combustíveis, agronegócio, mercado imobiliário, transporte e entretenimento, além de manterem o controle territorial e a imposição de regras em comunidades e presídios.
A análise parte do delegado da Polícia Federal Alexandre Custódio Neto, coordenador-geral de Repressão a Drogas e Facções Criminosas da Diretoria de Combate ao Crime Organizado (CGPRE/Dicor). Em entrevista exclusiva à coluna, ele explicou que as facções brasileiras exercem uma forma de "governança criminal" em regiões sob seu domínio. Essa atuação envolve não apenas a exploração de atividades ilícitas, mas também o estabelecimento de normas, o controle de mercados e a imposição de restrições tanto a outros criminosos quanto à população local.
"Elas acabam exercendo uma certa governança criminal, ditando regras para criminosos e também para as pessoas que vivem nessas áreas", afirmou Custódio Neto.
O avanço sobre a economia formal é motivado pela busca por oportunidades de ocultar recursos provenientes de atividades ilegais. Investigações recentes da PF identificaram indivíduos ligados a facções atuando em postos de combustíveis, empreendimentos imobiliários, atividades agrícolas e empresas de entretenimento. Esses setores facilitam a mistura de lucros obtidos com tráfico de drogas, armas, contrabando e outros crimes com receitas aparentadas de legitimidade.
"A pessoa atua no tráfico de drogas e adquire um posto de combustível, uma fazenda ou uma produtora de música. Assim consegue trazer parte do recurso ilícito para o negócio legal e lavar o dinheiro", detalhou o delegado.
Um risco adicional dessa expansão para o mercado formal, segundo a Polícia Federal, é a potencial transferência da violência para o ambiente empresarial. Relatos de investigações indicam que membros de organizações criminosas passaram a empregar métodos de intimidação, ameaça e coerção em disputas comerciais.
"Muitas vezes esse criminoso que veio de uma realidade violenta leva essa prática para o mercado legal. A violência passa a ser também um instrumento de concorrência empresarial", alertou o delegado. Há casos documentados em que empresários são coagidos a vender negócios ou deixar mercados diante da atuação de grupos criminosos.
O crescimento econômico dessas organizações também explica a capacidade delas de financiar suas estruturas. Contrariando uma percepção comum, as facções não operam como empresas centralizadas, mas se assemelham a uma rede de empreendedores criminosos que mantêm negócios próprios, mas compartilham proteção, logística e influência mútua.
Fontes de receita primária para as facções atualmente derivam do varejo de drogas em áreas sob seu controle. As chamadas "biqueiras" ou "bocas de fumo" asseguram um fluxo contínuo de recursos, permitindo o custeio de advogados, assistência a familiares de presos e a manutenção geral da estrutura organizacional. Historicamente, mensalidades pagas por integrantes, conhecidas como "caixinhas" ou contribuições obrigatórias, também foram mecanismos de arrecadação.
Outro mecanismo identificado pelas autoridades é a exploração econômica direta dos territórios dominados. Em diversas regiões, organizações criminosas passaram a interferir em atividades como a venda de gás, transporte alternativo, fornecimento de internet clandestina e a cobrança de taxas de comerciantes e moradores.
Para o delegado, o combate a esse modelo complexo exige uma abordagem multifacetada. "Não existe bala de prata. É preciso combater a violência, retomar territórios e atingir as estruturas financeiras dessas organizações", declarou.
Nesse contexto, as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) ganham protagonismo. Essas unidades reúnem a Polícia Federal, polícias estaduais, Polícia Penal e outros órgãos de segurança para otimizar o compartilhamento de inteligência e a execução de operações conjuntas. A integração entre as forças tem gerado resultados mais significativos no combate às facções, especialmente na prisão de líderes, apreensão de bens e desarticulação de grupos que controlam territórios.
Estudos recentes evidenciam a magnitude do problema. Uma pesquisa Datafolha divulgada em 2025 indicou que aproximadamente 19% dos brasileiros com mais de 16 anos residem em áreas sob domínio ou forte influência de facções criminosas ou milícias, o que equivale a cerca de 28,5 milhões de pessoas.
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