MERCADO EM TRANSFORMAÇÃO
EUA buscam carne bovina magra e Brasil encontra oportunidades
Especialista aponta que a demanda americana por cortes com menos gordura abre espaço para o agronegócio brasileiro, mas alerta sobre concorrência global crescente. Especialista Luis Burciaga apresentou dados na Feicorte 2026.
O mercado de carne bovina nos Estados Unidos está passando por uma transformação profunda que redefine as estratégias de produtores em todo o mundo, inclusive no Brasil. A análise foi apresentada por Luis Burciaga, médico veterinário e consultor da Telus Agricultura, durante a Feicorte 2026, realizada em Presidente Prudente (SP) nesta sábado, 27/06/2026. Burciaga, que atua em diversos setores e investe na produção pecuária na América do Norte com fazendas no México, EUA e Canadá, destacou a mudança no cenário americano. Embora o número de fêmeas para reprodução nos EUA tenha caído drasticamente desde o pico de 45 milhões na década de 1970 para 27,6 milhões em janeiro de 2026 – o menor patamar em décadas segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) –, a produção total de carne bovina não diminuiu na mesma proporção. O aprimoramento genético e a seleção de animais garantem que um boi moderno produza significativamente mais carne do que há 50 anos. A produção de carne Prime, o mais alto padrão de marmoreio do USDA, destinado ao mercado gourmet, continua a crescer, representando mais de 14% do total abatido. Em janeiro de 2026, houve um aumento de 3% nos abates para o mercado Prime, totalizando 6.500 cabeças a mais. A escassez de "gado comum" para carne magra é uma realidade. Pela primeira vez na história, o diferencial de preço entre a carne Choice (qualidade intermediária) e a Select (mais magra e econômica) inverteu-se, justamente pela menor oferta de produtos mais acessíveis. Essa lacuna no mercado é onde o Brasil pode atuar. Segundo dados da Universidade Estadual de Oklahoma, a carne moída responde por quase 48% do consumo total de carne bovina nos Estados Unidos. Apesar de uma leve queda no consumo per capita geral, o consumo de carne moída tem se mantido estável e em crescimento. Essa dinâmica é crucial para o Brasil, que exporta principalmente carne magra para os EUA. Essa carne é utilizada para equilibrar as receitas, uma vez que a carne moída americana tende a ser mais gorda. "Os norte-americanos misturam a carne mais magra do Brasil com a carne gorda deles para fazer o hambúrguer. Essa é a lógica da interdependência", explicou Burciaga. O uso crescente de medicamentos para emagrecimento em animais também impulsiona a busca por cortes bovinos mais magros, influenciando a precificação em toda a cadeia produtiva. O Brasil enfrenta um cenário com muitas oportunidades, mas também com riscos significativos. O país é um fornecedor importante de carne magra para o mercado americano, mas a competição global se intensifica. Burciaga citou o México e a Mongólia como exemplos de países que investem em sistemas de produção mais eficientes. O México, que historicamente exportava bezerros e gado magro para ser terminado nos EUA, agora desenvolve sua própria capacidade de abate e exporta carne acabada. "Os mexicanos passaram a agregar valor, pois antes só vendiam animais vivos. O trato nos confinamentos dos EUA está cada vez mais caro, incluindo o preço dos animais de reposição. O México entendeu que tinha a chance de mudar a dinâmica e está mudando", observou o consultor. Já a Mongólia, um país que Burciaga visita com frequência devido à expansão da Telus, possui um rebanho bovino estimado em 71 milhões de cabeças. O sistema de produção extensivo, baseado em pastagens naturais e pastejo livre, com baixo custo de terra e proximidade logística com a China, representa um desafio para o Brasil. "A Mongólia está a poucos quilômetros da China. O Brasil está do outro lado do mundo. Se a China quiser carne barata e acessível logisticamente, num futuro recente, será difícil bater a Mongólia", alertou o consultor, ressaltando a importância estratégica da localização para a competitividade no mercado internacional.
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