ALERTA DE RISCO
Estudo revela que maioria das cidades brasileiras falha na gestão de riscos de deslizamentos
Pesquisa aponta que cerca de 2.000 municípios suscetíveis a desastres não possuem os instrumentos básicos para proteção, com pior cenário no Nordeste.
A grande maioria dos municípios brasileiros sob risco de deslizamentos e inundações carece dos instrumentos essenciais para a gestão e proteção contra desastres naturais. Uma pesquisa realizada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) revelou que, de aproximadamente 2.000 cidades em situação de vulnerabilidade, poucas possuem os mecanismos necessários para lidar com a crescente frequência desses eventos, intensificados pelas mudanças climáticas.
Os resultados da investigação, publicados na Revista Brasileira de Geografia, periódico científico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam um quadro preocupante: 75% dessas cidades possuem menos da metade dos planos e mapeamentos obrigatórios para mitigar riscos, e 91% sequer dispõem de planos de obras voltados para a redução de perigos. A situação agrava-se na região Nordeste, onde se concentra o maior número de prefeituras com recursos e estrutura limitados para enfrentar calamidades.
O estudo, intitulado “Capacidades organizacionais de gestão de riscos de desastres geo-hidrológicos em municípios prioritários no Brasil”, faz parte de um dossiê sobre Clima Urbano. As capacidades organizacionais referem-se ao conjunto de recursos humanos, financeiros, materiais, tecnológicos e políticos indispensáveis para que uma entidade cumpra suas funções. A pesquisa liderada por André Luiz Martins Cotting, mestrando do Cemaden e bolsista da Fapesp, analisou dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE.
A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, instituída em 2012, definiu 821 municípios como prioritários com base em indicadores de ocorrência, vulnerabilidade e suscetibilidade a desastres. Este número foi atualizado para 2.086 municípios, que deveriam contar com órgãos de proteção e defesa civil e instrumentos específicos de Gestão de Riscos de Desastres (GRD), como planos de contingência e mapeamentos de áreas de risco. No entanto, a pesquisa aponta que, entre 267 municípios prioritários avaliados, 13% não possuem defesa civil municipal.
Observa-se que os municípios detêm mais instrumentos para o risco de inundações (63% possuem mapeamentos) do que para deslizamentos (45%). Contudo, os instrumentos de maior complexidade, como o plano de implantação de obras e serviços para redução de desastres, são raros, possuídos por menos de 9% das cidades prioritárias.
André Luiz Martins Cotting ressaltou que os resultados evidenciam desafios significativos para a implementação prática da GRD. Ele defende que a atualização do cadastro de municípios prioritários deve ser acompanhada por iniciativas que fortaleçam a capacidade dessas localidades. Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coordenador do Projeto Cope, destacou a importância da publicação do estudo em português e com acesso gratuito, visando a mobilização de gestores públicos e formuladores de políticas antes que novas tragédias ocorram.
A pesquisa original foi publicada pela Agência Fapesp em 21 de maio de 2026.
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