SAÚDE E HÁBITOS
Estudo revela: custo e rotina impedem brasileiros de comerem bem
O Pacto Contra a Fome e o Instituto Pensi apontam descompasso entre o que se sabe e o que se pratica na alimentação. Milhões vivem com insegurança alimentar.
Uma pesquisa detalhada, desenvolvida pelo Pacto Contra a Fome e conduzida pelo Instituto Pensi, com apoio da FOLU (Coalizão para a Alimentação e o Uso da Terra) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal, revelou que, apesar de os brasileiros demonstrarem amplo conhecimento sobre alimentação equilibrada, barreiras como o alto custo dos alimentos, a falta de tempo e a sobrecarga mental impedem que transformem essa consciência em hábitos diários. O estudo, cujos resultados vêm à tona nesta terça-feira, 28 de abril de 2026, destaca um descompasso alarmante entre intenção e prática, afetando diretamente a dignidade alimentar e a saúde de milhões, e exigindo ações urgentes de políticas públicas.
Este levantamento aponta para um claro descompasso entre a intenção de comer bem e o comportamento alimentar real. Enquanto a maior parte da população reconhece a importância vital de consumir alimentos in natura – como frutas, legumes e verduras –, a rotina corrida, o cansaço e os preços elevados se consolidam como obstáculos intransponíveis para a manutenção de uma dieta saudável.
Maria Siqueira, cofundadora e co-diretora executiva do Pacto Contra a Fome, pontua: “A maior parte das pessoas sabe que uma alimentação saudável é baseada em produtos in natura, frutas, legumes e verduras. O que não está acontecendo é a prática. A intenção de comer bem e o comportamento não estão necessariamente andando juntos.”
O estudo mostra que, apesar do esforço dos entrevistados em organizar a alimentação, planejando compras e preparando refeições, a intensidade da rotina diária acaba por comprometer essa boa intenção.
Relatos coletados nos grupos focais ilustram essa complexa realidade. Uma participante de São Paulo, de 37 anos, da classe AB, por exemplo, relata dificuldades para cozinhar devido à escassez de tempo, conseguindo preparar refeições somente à noite.
A alimentação saudável, embora muito valorizada, é frequentemente associada a disciplina, obrigação e sacrifício – fatores que reduzem significativamente seu apelo no cotidiano agitado. Em contrapartida, alimentos ultraprocessados, fast food e serviços de delivery são percebidos como opções mais práticas, acessíveis e ligadas ao prazer imediato.
Siqueira observa: “Hoje não se entende alimentação saudável como prazerosa. Já o fast food e o delivery aparecem como indulgência.” Este comportamento se manifesta em diversos perfis sociais. Uma mulher de 39 anos, da classe C, mãe de uma criança, prioriza preparações rápidas no dia a dia. Outra participante, de 26 anos, da classe AB, confessa que, após dias exaustivos, recorrer a aplicativos de entrega se torna a alternativa mais viável, admitindo: “Por mais que não seja saudável, é o que dá.”
Para Claudia König, pesquisadora do Instituto Pensi, o desafio transcende o simples preparo das refeições. A gestão da alimentação envolve decisões constantes e uma carga mental significativa. “Existe uma carga mental invisível relacionada ao planejamento alimentar. Não é apenas cozinhar, mas decidir o que será preparado, considerar preferências da família e conciliar tudo isso com uma rotina já sobrecarregada”, esclarece.
Essa percepção emerge de forma recorrente entre os participantes, independentemente da classe social.
O preço dos alimentos surge como um dos principais fatores que impactam drasticamente as escolhas alimentares. A ideia de que “comer saudável é caro” foi mencionada em praticamente todos os grupos analisados, evidenciando uma barreira econômica generalizada.
Quando o orçamento familiar é reduzido, as estratégias de adaptação variam conforme a renda. Entre os entrevistados das classes AB, o ajuste costuma ocorrer em itens considerados supérfluos, como doces, petiscos, peixes mais nobres, azeites premium e produtos específicos como iogurtes proteicos, sem comprometer a base da dieta.
Nas classes C e DE, no entanto, o impacto é bem mais direto na qualidade e diversidade alimentar. Carnes, frutas e hortaliças são frequentemente retiradas da lista de compras essenciais. Uma participante de 30 anos, mãe, da classe C, revela sua realidade: “[Sobre suco], deixo a fruta e compro o de saquinho. É bem mais em conta.”
Outro relato, de uma jovem de 24 anos, da classe C, em Belém, aponta para uma drástica redução na variedade de alimentos disponíveis: “a variedade de frutas diminui, não dá para comprar vários tipos”. Similarmente, uma mulher de 29 anos, da classe DE, também de Belém, resume a dolorosa adaptação alimentar diante da restrição financeira: “Quando o dinheiro está pouco, normalmente sai a salada, que é o pepino.”
Os dados deste estudo dialogam de perto com o cenário nacional mais amplo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), o Brasil ainda registrava 54,7 milhões de pessoas vivendo com algum nível de insegurança alimentar em 2024, o equivalente a cerca de 25% da população. Este quadro apresenta intensidades variadas: na forma leve, há preocupação com o acesso futuro aos alimentos e queda na qualidade da dieta; no nível moderado, ocorre redução na quantidade consumida, principalmente entre adultos; já na forma grave, há uma falta efetiva de alimentos nos próprios domicílios, atingindo a dignidade de quem vive essa realidade.
O levantamento também evidencia profundas desigualdades de gênero na organização da alimentação doméstica. As mulheres são, majoritariamente, as responsáveis pelo planejamento, compra e preparo das refeições, mesmo quando exercem atividades profissionais fora de casa, acumulando uma dupla jornada exaustiva. Os homens, por sua vez, tendem a participar mais em momentos pontuais, como o preparo ocasional ou situações de lazer. Além da sobrecarga física e mental, as mulheres também relatam um maior sentimento de culpa em relação à alimentação de suas famílias.
Para as pesquisadoras, enfrentar esses desafios multifacetados exige mais do que simplesmente disseminar informação sobre nutrição. São necessárias políticas públicas e estratégias estruturais robustas que facilitem o acesso democrático a alimentos saudáveis para todos.
Segundo Claudia König, a mudança fundamental envolve múltiplos atores e setores da sociedade, incluindo organizações sociais, iniciativas privadas e influenciadores digitais, todos capazes de impactar comportamentos de maneira positiva.
Maria Siqueira defende a urgência de uma intervenção eficaz no ambiente alimentar, com medidas que incentivem concretamente o consumo de alimentos in natura. “É preciso regular o ambiente alimentar, com subsídios a alimentos in natura e fomento a políticas que ampliem a viabilidade e o acesso mais barato a esses alimentos”, afirma com convicção.
Outro ponto crucial destacado é o papel estratégico do marketing. “Hoje, a propaganda favorece alimentos prejudiciais à saúde. É preciso usar esses mesmos mecanismos para promover escolhas mais saudáveis e reverter essa lógica”, diz Siqueira.
A educação alimentar, especialmente no ambiente escolar, emerge como um eixo estratégico fundamental para promover mudanças de longo prazo e sustentáveis. Experiências internacionais são citadas como referência. “Em países como a Alemanha, há aulas semanais de culinária até o ensino médio. O que a criança está aprendendo na escola vai impactar a família dela, porque ela vai levar aquilo para casa”, observa König, apontando para a capacidade de transformação geracional.
A pesquisa foi cuidadosamente realizada em duas etapas: análise de 210 estudos científicos e entrevistas aprofundadas com 142 pessoas, conduzidas entre setembro e novembro de 2025, em cinco capitais brasileiras — São Paulo, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e Belém. A amostra teve uma predominância feminina (70%) e foi criteriosamente dividida entre jovens de 18 a 25 anos e adultos de 30 a 40 anos. Entre as limitações apontadas pelos próprios pesquisadores estão a coleta remota de dados, o recorte geográfico restrito às capitais e a possibilidade de vieses de seleção e gênero.
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