DADOS DO SUS

Estudo do SUS revela invisibilidade da dor menstrual: 41 mil casos identificados com IA

Gráfico abstrato representando análise de dados médicos com foco em saúde feminina.
O estudo utilizou Inteligência Artificial para analisar prontuários do SUS e identificar a subnotificação de dores menstruais e pélvicas.

Análise com Inteligência Artificial aponta que queixas de dor menstrual e pélvica são subnotificadas em 21 vezes nos registros clínicos. Profissionais de saúde e protocolos médicos são apontados como fatores.

[ { "type": "paragraph", "props": {"content": "Um estudo inédito, com resultados divulgados nesta quinta-feira, 21/05/2026, revelou a invisibilidade da dor menstrual e pélvica em registros clínicos do SUS (Sistema Único de Saúde). A pesquisa, que cruzou dados de mais de 469 mil meninas e mulheres brasileiras, constatou que grande parte dessas informações importantes fica oculta em campos abertos de prontuários, sem o registro oficial nos sistemas tradicionais de classificação de doenças.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A pesquisa foi conduzida pela Vital Strategies Brasil em parceria com o Laboratório FrameNet Brasil da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e contou com o financiamento do Instituto Alana. O levantamento analisou informações do e-SUS, internações hospitalares e do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), focando em pacientes de 10 a 49 anos atendidas na rede pública em Recife, entre os anos de 2016 e 2025.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Ao considerar apenas os CIDs (Códigos Oficiais de Doenças), os casos de dores pélvicas e menstruais representam apenas 0,5% do total de mulheres atendidas. Contudo, ao aplicar uma metodologia que utilizou Inteligência Artificial (IA) para identificar menções ocultas em prontuários, o número saltou para 41 mil casos (9%) – um aumento de cerca de 21 vezes em relação ao registro oficial. A IA foi fundamental para interpretar textos escritos por profissionais de saúde.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A análise expõe um preocupante descompasso entre o que as pacientes relatam e o foco dos atendimentos médicos. Condições como endometriose e adenomiose, que causam dores intensas, aparecem majoritariamente no campo subjetivo do prontuário, destinado às queixas informadas pela paciente. Em contraste, nos campos 'Objetivo', que guiam a conduta clínica, essas condições surgem até 2,3 vezes menos.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A qualidade das informações registradas também se mostrou deficiente. Em menos de 5% dos casos, havia detalhes cruciais como intensidade da dor, frequência e duração dos sintomas. Paralelamente, o estudo identificou que pacientes com histórico prévio de dores semelhantes procuram atendimento médico cinco vezes mais do que aquelas cujos registros não mencionam dores pélvicas e menstruais.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Esses achados apontam para um cenário de invisibilidade das queixas de mulheres e meninas, que podem conviver com dores crônicas durante toda a vida menstrual. As queixas raramente resultam em encaminhamento para tratamento imediato, o que dificulta o acesso ao cuidado adequado.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "O médico Omero Poli Netto, coordenador de pesquisa em dor pélvica e endometriose, aponta que a formação médica ainda foca na busca por lesões periféricas que justifiquem a dor. 'Quando eles não a encontram, a queixa é frequentemente desvalorizada — às vezes rotulada como "sem fundamento"', explica. Ele ressalta que a dor em si é uma condição que precisa ser considerada na conduta médica, não apenas um sintoma de outra doença. "A dor é uma doença em si mesma", afirma.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "O treinamento de profissionais na atenção básica pode ser crucial para reverter essa subnotificação. Uma linha de cuidado específica para meninas em fase de menarca — a primeira menstruação — poderia orientá-las sobre sintomas associados ao ciclo menstrual e facilitar a busca por ajuda em casos mais graves. Esse acolhimento, no entanto, requer que os profissionais de saúde vejam a dor como uma condição a ser investigada, e não como algo normal.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Sofia Reinach, gerente de saúde e líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Alana, reforça que a dor não deve ser encarada como um aspecto inerente à vida de meninas e mulheres. "Quanto mais cedo o cuidado for garantido, sem tratar a dor como normal, com registro das queixas, oferta dos métodos existentes para manejo da dor e encaminhamento para serviços específicos, menor o risco de cronificação", defende a especialista.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A associação entre dores menstruais e pélvicas e experiências de violência também foi um ponto de atenção. O estudo identificou que mulheres com dor crônica apresentam uma chance 43% maior de ter algum registro associado à violência interpessoal em comparação com mulheres sem dor. Essa conexão, segundo Omero, depende fundamentalmente do vínculo entre profissional de saúde e paciente.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": ""Perguntas sensíveis, mas diretas, são frequentemente mais eficazes do que abordagens indiretas ou evasivas", defende o médico. Ele acrescenta que o profissional que se esquiva do assunto transmite, involuntariamente, que "aquilo não pode ser dito". A coexistência da dor com a violência piora a qualidade dos registros, mesmo em pacientes que buscam serviços de saúde com maior frequência (cerca de 35 vezes mais). Suas queixas se perdem devido à falta de preparo para lidar com a complexidade do caso. "Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para quebrá-lo", comenta Omero.", "align": "left"} }, { "type": "paragraph", "props": {"content": ""O que não é contado não vira política pública. E o que não vira política pública continua sendo resolvido em silêncio, por cada menina, mês após mês", lamenta o médico. Ele conclui que registrar corretamente as queixas é uma forma concreta de demonstrar que esses relatos importam e merecem atenção e políticas de saúde eficazes.", "align": "left"} } ]

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