FÁBRICA EM APUROS
Estrela entra com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 109 milhões em dívidas
A tradicional fabricante de brinquedos Estrela busca reestruturar seu passivo em Minas Gerais devido a perdas de competitividade, restrições de crédito e mudanças no comportamento do consumidor infantil. O pedido abrange oito subsidiárias.
Em um movimento que sinaliza os desafios enfrentados pelo setor de brinquedos, a fabricante Estrela protocolou, nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026, um pedido de recuperação judicial em Minas Gerais. A decisão, comunicada ao mercado na quinta-feira, visa renegociar uma dívida total de R$ 109 milhões. O pedido surge em resposta a uma combinação de fatores, incluindo a perda de competitividade diante de novas alternativas de entretenimento, a dificuldade de acesso a crédito e as transformações no comportamento do consumidor infantil, cada vez mais atraído pelo universo digital.
A companhia, responsável por marcas icônicas como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Pogobol e a boneca Susi, informou que a medida é necessária para a "reestruturação do passivo do grupo, em um contexto de pressões econômicas e setoriais relevantes". O processo de recuperação judicial se estende às oito subsidiárias da Estrela, englobando seus braços industrial e de distribuição, além da Editora Estrela e de sua vertical de cosméticos.
Segundo o comunicado oficial, o aumento do custo de capital, as restrições de crédito e a concorrência crescente de plataformas digitais têm impactado significativamente a operação da empresa. A principal fábrica da companhia está localizada em Minas Gerais, onde o pedido foi formalizado. Fundada em 1937 pelo empresário alemão Siegfried Adler, a Estrela é uma das marcas mais tradicionais do País, tendo atravessado diversos ciclos econômicos ao longo de quase nove décadas.
A crise atual, contudo, não é recente. Desde a abertura do mercado brasileiro nos anos 1990, a empresa tem lutado contra a entrada de brinquedos importados, principalmente da Ásia, que oferecem preços mais baixos. Executivos e consultores do setor apontam que essa competição reduziu drasticamente a competitividade da Estrela. José Antonio Ferraiuolo, sócio da 2xCapital, consultoria que assessora a empresa, corrobora essa visão, afirmando que os percalços de mercado se acumulam desde aquele período, levando a perdas expressivas de faturamento, que chegou a cair 50% em um único ano na época da abertura econômica.
Dados recentes da Abrinq revelam que, em 2025, o faturamento do setor de brinquedos no Brasil atingiu R$ 10,39 bilhões. A produção nacional representou 53% desse montante (R$ 5,535 bilhões), uma queda em relação aos 59% de participação da indústria brasileira em 2017. Essa diminuição reflete não apenas a concorrência externa, mas também mudanças profundas no perfil de consumo infantil, com jogos eletrônicos, celulares e plataformas digitais competindo diretamente com brinquedos clássicos como bonecas, carrinhos e jogos de tabuleiro.
Roberto Wajnsztok, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, observa que a indústria de brinquedos como um todo sofre com a redução do interesse das crianças por produtos tradicionais. No entanto, ele destaca que a Estrela enfrenta esse desafio com uma exposição ainda maior, devido à forte concentração de seu portfólio em segmentos mais afetados por essas mudanças de hábitos de consumo. Apesar das dificuldades financeiras, a marca Estrela mantém um forte apelo emocional e um lugar cativo no imaginário de diversas gerações de brasileiros, com clássicos como Banco Imobiliário e Jogo da Vida, além da icônica boneca Susi, que se tornou item de colecionador e foi relançada em ações comemorativas.
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