RUMO À ELETRIFICAÇÃO
Especialistas veem ônibus elétricos como chave da mobilidade no Brasil
Debates no Metrópoles sobre frota elétrica revelam custo 3x maior, mas prometem conforto e reposicionamento industrial.
A transição para ônibus elétricos representa uma chance histórica para transformar a mobilidade urbana no Brasil. Este tema central foi intensamente debatido por especialistas no painel “A virada do mercado e a nova lógica de consumo da mobilidade elétrica”, que encerrou o talk “Nova Era dos Veículos — o Futuro da Mobilidade no Brasil”. O evento, promovido pelo Metrópoles na última quarta-feira, 13 de maio, no Ulysses Centro de Convenções, reuniu vozes influentes como Clarisse Cunha Linke, diretora-executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), e Marcus Quintella, diretor executivo da Fundação Getulio Vargas (FGV) Transportes. Eles apontaram que a eletrificação da frota, além de prometer conforto e sustentabilidade, impõe um redesenho completo no financiamento e na infraestrutura do transporte público, impactando diretamente a qualidade de vida nas grandes cidades e o desenvolvimento econômico do país.
Apesar da oportunidade, a jornada é desafiadora. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam que o Brasil destina menos de 1% do PIB para a mobilidade urbana, um valor insuficiente para assegurar um transporte acessível e eficiente. A fragmentação entre os modais, com a ausência de bilhete único ou corredores exclusivos em muitas cidades, agrava a situação.
Marcus Quintella, da FGV Transportes, detalhou os problemas crônicos que o transporte coletivo brasileiro enfrenta: governança deficiente, escassez de financiamento e operações falhas. Ele correlacionou a queda de passageiros pós-pandemia à má qualidade do serviço. “Aconteceu muito pela falta de regularidade, oferta e pelo péssimo serviço prestado”, avaliou o especialista.
Em contraste, a chegada dos ônibus elétricos promete uma experiência de usuário revolucionária. “É um ônibus que tem menos ruído, é mais confortável para o passageiro e também para o motorista”, explicou Clarisse Linke, enfatizando como essa tecnologia pode trazer mais dignidade e bem-estar para milhões de pessoas em seus deslocamentos diários. Além disso, a renovação da frota incorporará inovações em segurança, monitoramento e gestão de dados.

Novas formas de financiamento impulsionam mudança
Clarisse Linke ressaltou que, mesmo com a diminuição de passageiros após a pandemia, os ônibus permanecem como o principal meio de deslocamento urbano no Brasil, demandando atenção e investimentos urgentes. A implementação de uma frota elétrica, no entanto, esbarra em um custo inicial elevado – os veículos custam cerca de três vezes mais que os modelos a diesel. Este cenário exige a criação de novos mecanismos de financiamento e a ampliação da participação de agentes econômicos privados.
Para a diretora do ITDP, essa reestruturação pode quebrar paradigmas de concessão e fortalecer o papel do Poder Público na administração do transporte coletivo. “A entrada de uma nova tecnologia abre a oportunidade de discutir governança, contratos, responsabilidades e planejamento”, afirmou Clarisse.

A especialista também defendeu que a eletrificação deve vir acompanhada de melhorias operacionais profundas para que a modernização não se limite ao veículo. “Não adianta você ter um super veículo novo se ele continua operando de forma absolutamente ineficiente e congestionado”, argumentou. Medidas como faixas exclusivas, integração tarifária e uma maior conexão entre ônibus e sistemas metroferroviários são consideradas essenciais.
Além dos benefícios urbanos, Clarisse Linke apontou o vasto potencial econômico da transição energética. Ela lembrou que o Brasil já foi um líder na produção de ônibus na América Latina, um posto hoje ocupado por nações como Chile e Colômbia, que operam com grandes frotas elétricas, majoritariamente fornecidas por fabricantes chineses.
“O Brasil tem uma frota doméstica significativa de 107 mil ônibus. Se houver uma visão de curto, médio e longo prazo para essa substituição, isso pode ajudar a reposicionar o país do ponto de vista industrial”, defendeu Linke, vislumbrando um renascimento da indústria nacional.
Marcus Quintella corroborou a viabilidade econômica da eletrificação a longo prazo. Embora o investimento inicial seja considerável, os custos operacionais tendem a diminuir significativamente ao longo da vida útil dos veículos. “O custo econômico diluído dentro do ciclo de vida é mais compensador do que o modelo atual”, explicou.

No entanto, o diretor da FGV Transportes alertou que a expansão dos ônibus elétricos depende crucialmente de avanços na infraestrutura de recarga e de um modelo de financiamento público sustentável. “A tarifa não cobre os custos do transporte”, afirmou Quintella.
O desafio financeiro emergiu como o principal obstáculo atual. Clarisse Linke destacou que a pandemia alterou a percepção sobre a necessidade de subsídios públicos para o setor. “Até então, a discussão sobre subsídio era quase pecaminosa no campo da mobilidade”, ressaltou. “Agora existe uma demanda grande sobre a importância da gente tratar do subsídio e reverter esse processo no qual o usuário é o principal responsável pelo pagamento do sistema.”
A especialista também enfatizou que o país atravessa um momento decisivo, com discussões no Congresso sobre novos marcos regulatórios e propostas de financiamento, incluindo a PEC 23/2025, que visa a criação do Sistema Único de Mobilidade.
O talk “Nova Era dos Veículos — o Futuro da Mobilidade no Brasil” foi um oferecimento da BYD.
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