SAÚDE SEM LIMITES
Especialistas divergem sobre Medicina da Longevidade
Crescimento impulsionado por busca por qualidade de vida, mas sem regulamentação clara nos Estados Unidos e Brasil, levanta alertas sobre práticas e segurança.
O crescente interesse em uma vida mais longa e saudável impulsiona a rápida expansão da Medicina da Longevidade nos Estados Unidos e no Brasil. No entanto, sua ascensão se dá em um complexo cenário sem regulamentação clara ou certificação formal, gerando uma profunda divisão entre especialistas. Essa lacuna permite a coexistência de abordagens preventivas baseadas em evidências e práticas sem comprovação científica, levantando sérias preocupações sobre a segurança dos pacientes e a integridade da saúde pública, que buscam respostas em um campo ainda em formação.
Até o momento, não existem diretrizes oficiais consolidadas nem uma especialização formal exigida para a atuação na área, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Na prática, médicos com diversas formações podem se apresentar como especialistas em longevidade, um fenômeno intensificado pela ampla divulgação de conteúdos nas redes sociais. Dessa forma, profissionais que seguem evidências científicas e clínicas que propõem produtos e procedimentos com respaldo limitado atuam lado a lado, confundindo o público.
O presidente da American Medical Association, Bobby Mukkamala, sublinha a necessidade de análise criteriosa no setor. Para ele, a Medicina da Longevidade “exige muito escrutínio”, e é fundamental questionar se os tratamentos propostos “se baseiam em algo realmente comprovado para funcionar ou em algo que ainda não foi demonstrado?”.
No entanto, defensores da área destacam que a proposta central é intensificar a prevenção de doenças e personalizar o cuidado médico. Em sua melhor vertente, conforme apontam especialistas, a Medicina da Longevidade proporciona consultas mais longas, acompanhamento minucioso e planos de tratamento feitos sob medida para o perfil de cada paciente.
“Acho que, no melhor cenário, a Medicina da Longevidade é aquilo que a boa medicina sempre aspirou a ser, mas raramente teve ferramentas para entregar”, declara Jordan Shlain, fundador da clínica Private Medical, ressaltando o potencial da abordagem.
As consultas iniciais nesse campo geralmente envolvem avaliações abrangentes, que podem englobar desde testes de condicionamento físico e exames laboratoriais até sequenciamento genético e exames de imagem corporal. Enquanto parte desses exames já integra a rotina da atenção primária, outros, como os testes de lipoproteína(a) e apolipoproteína B — marcadores ligados ao risco cardiovascular —, estão sendo incorporados com mais regularidade.
A premissa dessas clínicas é antecipar riscos e intervir antes que as doenças se manifestem. “Quando pensamos na atenção primária hoje, ainda reagimos a informações que são, digamos, depois do fato”, explica Nicole Sirotin, diretora executiva do Institute for Healthier Living Abu Dabi.
Como exemplo, Sirotin menciona o controle da glicose. Na medicina tradicional, intervenções mais intensas geralmente ocorrem apenas com o diagnóstico de pré-diabetes, mas na abordagem da longevidade, medidas proativas podem ser adotadas ao identificar tendências de elevação antes mesmo de um diagnóstico.
Essa perspectiva é corroborada por Andrea Maier, codiretora da Academy for Healthy Longevity, da National University of Singapore. “Queremos que pessoas normais se tornem ideais”, declara. Para ela, a ação preventiva é crucial: “em dez anos é muito provável que você esteja fora do normal, então por que esperar?”.
Apesar das promessas, especialistas ressaltam que ainda há escassez de evidências de que a personalização oferecida pela Medicina da Longevidade traga resultados superiores aos alcançados com as diretrizes médicas tradicionais. Recomendações básicas, como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e sono adequado, persistem como pilares reconhecidos para a saúde, independentemente da abordagem.
Outro fator crucial é o custo. Os serviços, muitas vezes, não possuem cobertura por planos de saúde e podem variar de pagamentos avulsos por consulta a assinaturas anuais que atingem valores altíssimos, na faixa de cinco ou seis dígitos em dólar, tornando-os inacessíveis para a maioria da população.
Para a nutricionista Jessica Knurick, crítica da área, grande parte do valor pago está ligada à experiência de atendimento. “Na atenção primária, os profissionais precisam atender em 10 a 15 minutos e já encaminhar o próximo paciente”, diz. Em contrapartida, nos serviços de alto custo, “mesmo que façam exatamente a mesma coisa, a experiência será completamente diferente”, aponta, sugerindo que o diferencial pode ser mais sensorial que científico.
James Kirkland, diretor do Center for Advanced Gerotherapeutics at Cedars-Sinai, também salienta as limitações atuais. Segundo ele, ainda não há “muito” em termos de resultados que não possam ser obtidos com uma boa atenção primária. Embora demonstre expectativa com futuros avanços, Kirkland adverte que “há muita coisa sendo feita hoje que é arriscada e baseada em pouca evidência”, reforçando o perigo das práticas sem validação.
A falta de regulamentação clara cria um ambiente propício para práticas questionáveis e, em certos casos, perigosas. Clínicas oferecem tratamentos como uso de peptídeos, terapias com células-tronco e procedimentos de troca de plasma, frequentemente desprovidos de comprovação científica robusta e com riscos desconhecidos para a saúde dos indivíduos.
“Já tivemos pessoas que morreram por causa de células-tronco e outras que tiveram reações tóxicas graves por infusões de diferentes peptídeos”, alerta Evelyne Bischof, diretora médica do Sheba Longevity Center. Ela enfatiza: “Há riscos e danos”, um aviso severo sobre a imprudência em algumas abordagens.
Testes largamente divulgados, como os de idade biológica, também recebem críticas. Para Kirkland, sua utilidade é limitada. “Eles são úteis em nível populacional”, explica, “mas há enorme variação entre indivíduos de um dia para o outro”, indicando que o resultado pode não ser relevante para o diagnóstico individual.
Mesmo terapias ainda em estudo, como certos suplementos ou medicamentos empregados fora das indicações tradicionais, carecem de comprovação em humanos, embora demonstrem resultados iniciais promissores em pesquisas experimentais.
Jordan Shlain resume as críticas ao modelo atual de forma contundente: “A Medicina da Longevidade pode ser um pouco de charlatanismo reembalado”. Para ele, “os biomarcadores dão um verniz de rigor, os suplementos geram receita, e o paciente não ganha nem longevidade nem conversas honestas”, uma análise que denuncia a mercantilização da esperança.
Apesar das controvérsias e dos riscos, existem iniciativas em curso para estruturar e validar a área. Pesquisas clínicas avançadas e tentativas de regulamentação em diversos países buscam estabelecer padrões rigorosos e desenvolver terapias que possam atuar diretamente nos mecanismos do envelhecimento de forma segura e eficaz.
Eric Verdin, presidente e CEO do Buck Institute for Research on Aging, avalia que a área ainda se encontra em estágio inicial, mas com notável potencial de evolução. “De certa forma, a geromedicina hoje é um campo sem medicamentos específicos — mas eles virão”, afirma. Contudo, ele pondera: “Mas talvez estejamos um pouco adiantados demais em relação à nossa visão”, um lembrete da necessidade de cautela e base científica.
O debate em torno da Medicina da Longevidade, portanto, persiste intenso e dividido, oscilando entre as grandes expectativas de avanços científicos e as preocupações alarmantes com práticas sem comprovação. Este cenário complexo ainda busca um equilíbrio fundamental entre inovação, segurança do paciente e acesso equitativo a tratamentos verdadeiramente eficazes.
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