DIREITOS HUMANOS EM FOCO

Especialistas da ONU criticam acordo EUA-Irã por ignorar direitos humanos

Representação visual de criticismo a um acordo internacional.
Críticos da ONU apontam falhas no acordo que visa encerrar conflito no Oriente Médio.

Relatores independentes da Nações Unidas apontam que o pacto para encerrar conflito no Oriente Médio falha em proteger a população iraniana e garantir liberdades civis.

Especialistas independentes ligados ao sistema de direitos humanos das Nações Unidas criticaram, na última sexta-feira, 19 de junho de 2026, o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito que abalou o Oriente Médio nos últimos meses. Embora tenham saudado o fim das hostilidades, os relatores afirmam que o memorando assinado pelos dois países não trata de forma adequada a situação dos direitos humanos dentro da República Islâmica, impactando diretamente a dignidade e o bem-estar de sua população.

O acordo, consolidado nesta semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, busca encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro, após operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel que culminaram na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. A pactuação prevê compromissos relacionados à segurança regional, ao programa nuclear iraniano, à reabertura do Estreito de Ormuz, ao alívio de sanções econômicas e à criação de um fundo de reconstrução estimado em US$ 300 bilhões. A decisão, que põe fim a um período de intensa violência, tem como principal justificativa a necessidade de estabilizar a região, mas levanta sérias preocupações éticas quanto ao tratamento dado às liberdades individuais.

Outdoor relacionado ao Irã.
Imagem ilustrativa de outdoor no Irã.

Em comunicado conjunto, 18 especialistas com mandato do Conselho de Direitos Humanos da ONU afirmaram que, embora a iniciativa seja um passo importante para reduzir as tensões, ela apresenta lacunas significativas. "Qualquer acordo que não aborde a situação dos direitos humanos no Irã será fundamentalmente incompleto", alertaram os relatores, ressaltando que a dignidade humana deve ser central em qualquer processo de paz.

Segundo os especialistas, o memorando foca quase exclusivamente em questões militares, econômicas e geopolíticas, negligenciando o sofrimento e as consequências para a população iraniana. "O povo iraniano, que sofreu enormemente tanto com a agressão militar externa quanto com a repressão interna, quase não aparece nesse acordo", destacaram, enfatizando o impacto real da guerra sobre a vida das pessoas.

O conflito produziu consequências humanitárias profundas. Milhares de civis morreram durante os bombardeios, e milhões de pessoas foram deslocadas de suas residências. Os relatores avaliam que a reconstrução da estabilidade regional exige não apenas mecanismos de segurança, mas também garantias concretas de proteção aos direitos fundamentais da população, elementos essenciais para a restauração da dignidade.

A atuação das autoridades iranianas durante o período de guerra também é alvo de preocupação. O governo intensificou a repressão contra opositores e críticos do regime, com pelo menos 156 execuções registradas desde o início do conflito, 42 delas sob acusações relacionadas à espionagem e segurança nacional. Milhares de iranianos foram presos, com relatos de tortura, desaparecimentos forçados e confissões obtidas sob coerção, evidenciando uma grave violação de direitos básicos.

Embora atuem de forma independente e não falem oficialmente em nome da ONU, as avaliações desses especialistas são referências para debates internacionais sobre direitos humanos. Eles defendem que avanços diplomáticos não podem ignorar a realidade enfrentada pela população. "Um acordo que atende a interesses geopolíticos enquanto deixa de lado o povo iraniano não é um acordo de paz digno desse nome", afirmaram.

A manifestação ocorre em meio a esforços internacionais para consolidar o cessar-fogo. Para os especialistas, a estabilidade de longo prazo dependerá da interrupção dos combates, da reconstrução econômica e, crucialmente, da adoção de medidas que garantam a proteção aos direitos civis, políticos e humanitários dentro do Irã, assegurando um futuro mais justo e digno para todos.

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