ALERTA CLIMÁTICO
Especialistas alertam para encurtamento do intervalo entre eventos de El Niño intensos
Fenômeno que causa aquecimento nas águas do Pacífico Equatorial pode se repetir com força em 2026-2027, acendendo o alerta para a menor frequência entre episódios extremos.
Cientistas observam com crescente preocupação um padrão que se desenha no cenário climático global: os intervalos entre os eventos de El Niño mais intensos parecem estar diminuindo. Essa tendência, que pode ser um reflexo das mudanças climáticas, levanta preocupações sobre o impacto futuro em diversas regiões do planeta. A mais recente previsão da NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, divulgada em maio de 2026, indica uma probabilidade de 96% para o desenvolvimento de um novo episódio forte ou muito forte de El Niño até o fim de 2026, com persistência prevista entre dezembro deste ano e fevereiro de 2027. Enquanto isso, projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) apontam para valores ainda mais elevados, próximos de 3°C acima da média.
A classificação de um El Niño como “super” ou “muito forte” não é totalmente consensual entre os especialistas, pois os limites exatos podem variar conforme os critérios adotados. A NOAA, por exemplo, utiliza o patamar de 2°C acima da média como limiar informal para um evento “muito forte” ou “historicamente forte”, medido pelo Oceanic Niño Index (ONI) na região Niño-3.4 do Pacífico equatorial. Contudo, a percepção de que eventos mais intensos estão ocorrendo com maior frequência, ou com intervalos menores, é um ponto de atenção crescente na comunidade científica. O último evento classificado como muito forte, o de 2023-2024, levou a temperatura média global a ultrapassar pela primeira vez 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, impactando severamente a bacia amazônica e contribuindo para as enchentes no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024.
Ao analisar a série histórica de eventos extremos desde 1950, a diminuição dos intervalos entre episódios de grande magnitude é notável. Entre 1972 e 1982, passaram-se 10 anos. Já entre 1982 e 1997, foram 15 anos, seguidos por 18 anos até 2015. A aceleração se torna mais evidente nos eventos mais recentes: apenas 8 anos separam 2015 de 2023. Se o fenômeno previsto para 2026-2027 se confirmar como muito forte, o intervalo desde o episódio de 2023-2024 será de apenas 3 anos. Essa sequência, embora estatisticamente ainda frágil devido ao número limitado de eventos extremos em registro, alinha-se às projeções de modelos climáticos que há mais de uma década alertam para essa tendência.
O impacto do El Niño na dignidade e no bem-estar das populações é profundo e multifacetado. Eventos anteriores causaram desastres em larga escala: inundações afetaram 1,9 milhão de pessoas no Peru em 2016-2017; secas severas impactaram a produção global de alimentos em 1972-1973, levando ao colapso da indústria pesqueira peruana e à morte de milhões de aves marinhas; o episódio de 1982-1983 causou a morte de cerca de 2 mil pessoas e o deslocamento de centenas de milhares, além de provocar uma das piores secas do século 20 no Nordeste do Brasil. O evento de 1997-1998 foi associado a cerca de 23 mil mortes e à devastação de sistemas de recifes, enquanto o de 2015-2016 afetou mais de 60 milhões de pessoas e levou à morte de aproximadamente 2,5 bilhões de árvores na Amazônia devido à seca extrema e às queimadas.
Para o Brasil, a confirmação de um cenário de El Niño intenso pode agravar condições já observadas. No Norte e Nordeste, a tendência aponta para a redução das chuvas, aumento das temperaturas e intensificação das secas. No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, há um risco elevado de eventos hidrológicos extremos, como enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos, particularmente em áreas de serra e na região metropolitana de Porto Alegre. Santa Catarina e Paraná também podem enfrentar maior variabilidade regional e eventos de chuva intensa. Em um contexto de aquecimento global, a combinação de seca e altas temperaturas aumenta o risco de ondas de calor e incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal.
É crucial entender que as projeções climáticas, mesmo quando indicam um cenário de maior risco, não são determinísticas. A natureza caótica da atmosfera, como explica Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres, significa que pequenas variações podem levar a resultados distintos. Portanto, as análises devem ser utilizadas para orientar o monitoramento, a preparação e o planejamento antecipado. A expectativa é que as projeções ganhem mais precisão a partir de junho, com o enfraquecimento da “barreira de previsibilidade” da primavera do Hemisfério Norte, permitindo um planejamento mais eficaz diante da incerteza climática.
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