RISCO GLOBAL IMINENTE
Especialistas alertam: o mundo pode estar à beira de uma nova crise financeira?
Fundos de crédito privado, tensões energéticas e bolha da IA acendem sinais vermelhos; Banco da Inglaterra e FMI reduzem capacidade de resposta.
Economistas, reguladores bancários e líderes de organizações financeiras globais elevam o tom de alerta em 2026, apontando para uma série de sinais preocupantes que ecoam a crise financeira de 2008. A crescente fragilidade do sistema de crédito privado, a instabilidade geopolítica que afeta os preços da energia e a bolha de investimentos em Inteligência Artificial levantam a questão crucial: o mundo caminha para um novo colapso econômico? Essa análise, que mobiliza os principais nomes do mercado, é vital porque os efeitos de uma nova crise atingiriam duramente a dignidade e a subsistência de milhões de pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
Bobby Seagull, um operador do Lehman Brothers, vivenciou em primeira mão o impacto devastador da crise de 2008. Em 15 de setembro de 2008, ele chegou ao seu escritório em Canary Wharf, Londres, pouco antes das 6 da manhã, sem saber que seria a última vez que precisaria ser pontual. O banco americano, em sérias turbulências, estava pedindo falência nos Estados Unidos, e a incerteza pairava sobre os funcionários no Reino Unido.
O dia transformou-se em caos. Bobby relata a falta de comunicação direta com os colegas americanos e o desespero de alguns que tentavam resgatar bens. Com uma premonição, ele havia gasto 300 libras em chocolates no verão anterior, antecipando a possível inutilidade de seu cartão da máquina de venda automática caso o banco colapsasse. Assim, como milhares de colegas, Bobby colocou sua carreira em uma caixa de papelão, uma imagem que se tornou o símbolo da crise financeira global, levando à falência de inúmeras empresas e à perda de milhões de empregos, inaugurando uma das recessões mais longas desde a Segunda Guerra Mundial.
Agora, em 2026, diversos sinais de alerta voltam a surgir na economia mundial, reacendendo o debate: estamos no limiar de outra crise financeira? A próxima fase de um colapso seria diferente, e os formuladores de políticas terão as ferramentas necessárias para intervir, considerando a instabilidade das relações internacionais?
Sinal de alerta
Antes da turbulência de 2008, o sistema financeiro já apresentava rachaduras. Em 2007, muitos investimentos em empréstimos imobiliários de alto risco nos EUA sofreram prejuízos massivos devido à alta inadimplência. Fundos gerenciados por Bear Stearns, BNP Paribas e outros congelaram saques ou foram liquidados, servindo como prenúncio de uma crise mais profunda. O nervosismo se espalhou, e os bancos pararam de emprestar uns aos outros, desencadeando a chamada crise de crédito global.
Atualmente, o cenário se repete com fundos de empréstimos declarando prejuízos ou restringindo resgates. Grandes empresas como BlackRock, Blackstone, Apollo e Blue Owl enfrentam pedidos de saques bilionários de fundos de crédito privado, que oferecem uma alternativa aos bancos tradicionais. Reguladores bancários e veteranos do setor financeiro notam as semelhanças.
Sarah Breeden, vice-governadora do Banco da Inglaterra, que zela pela estabilidade financeira no Reino Unido, expressa preocupação com o rápido crescimento e a opacidade do mercado de crédito privado, um setor não testado por adversidades financeiras. "Há ecos da crise financeira global no que estamos vendo agora", afirma ela. O crédito privado cresceu de "zero para US$ 2,5 trilhões nos últimos 15 a 20 anos", com "alavancagem, opacidade, complexidade e interconexões" que remetem a 2008. Breeden também alerta para as múltiplas camadas de dívida que podem amplificar perdas: "Há alavancagem sobre alavancagem sobre alavancagem. O que queremos garantir é que todos entendam como essa complexa estrutura de alavancagem se acumula."
Mohammed El-Erian, principal consultor econômico da Allianz e ex-CEO da PIMCO, concorda que o risco de uma nova crise é subestimado. "Há certas semelhanças com 2007 que me tiram o sono. As semelhanças são fragilidades claras no sistema financeiro que não são devidamente reconhecidas", pontua. Ele observa que as restrições impostas aos bancos após 2008 impulsionaram o surgimento do mercado de crédito privado. "De repente, o sistema foi inundado por credores privados que desejam emprestar dinheiro para empresas. As empresas veem todo esse dinheiro disponível e, é claro, muito dinheiro faz as pessoas cometerem erros". El-Erian descreve um cenário alarmante: "De repente, todos que emprestam dinheiro querem seu dinheiro de volta ao mesmo tempo. Daqui a pouco, algo começado como uma ótima ideia se transformou em algo que representa um risco de instabilidade e, em vez de beneficiar a economia, corre o risco de desestabilizá-la."
No entanto, Larry Fink, chefe da BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, discorda. Ele afirma à BBC que o crédito privado não representa uma ameaça global, argumentando que os problemas atuais afetam apenas uma pequena fração do mercado. Embora a própria BlackRock tenha limitado saques em alguns fundos, Fink é categórico: "Não vejo nenhuma semelhança. Nenhuma", assegurando que as instituições financeiras estão mais seguras hoje. Contudo, alguns comparam a situação atual a uma "corrida lenta aos bancos", onde a ausência de filas físicas não significa a inexistência de pedidos de resgate.
Influência da crise energética
Outro paralelo com 2008 é a escalada dos preços da energia. Naquele ano, o petróleo Brent disparou de cerca de US$ 50 para US$ 100 por barril, atingindo um pico de US$ 147 em julho de 2008, impulsionado pela demanda chinesa e tensões geopolíticas com o Irã. Recentemente, os preços do petróleo superaram US$ 100 por barril, com alertas de novas altas caso não haja uma rápida resolução para o conflito envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz, uma artéria energética vital.
Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, descreveu o possível fechamento do Estreito de Ormuz como "a maior crise de segurança energética da história", superando os choques de 1973, 1979 e 2022 "juntos". Apesar do pessimismo, os preços atuais do petróleo, embora tenham subido mais de 50% desde o início do conflito com o Irã, ainda estão distantes dos US$ 147 por barril de 2008 (equivalente a US$ 190 em valores atuais). Os mercados de ações, por sua vez, operam perto de máximas históricas, sem o choque de 1973 que causou uma queda de 40% nas ações dos EUA.
Sarah Breeden, do Banco da Inglaterra, espera uma correção nos mercados de ações, que não refletem totalmente os riscos globais. Para ela, um choque energético é um risco real, especialmente se combinado com outros fatores. "O que acontece se vários desses riscos se concretizarem ao mesmo tempo?", questiona. "Um grande choque macroeconômico, ao mesmo tempo em que a confiança no crédito privado cai, ao mesmo tempo em que as avaliações de IA e outras avaliações de ativos de risco se reajustam. O que acontece nesse ambiente e estamos preparados para ele?"
Inteligência artificial
Breeden também alerta para o risco da Inteligência Artificial. Mais de US$ 2 trilhões foram investidos em IA, um "frenesi" que Bill Gates descreve como tal, e outros como uma bolha. Isso inflacionou as avaliações de megaempresas, concentrando 37% do valor do S&P 500 em apenas sete delas (incluindo Nvidia, Microsoft, Alphabet e Amazon, grandes investidoras em infraestrutura de IA). Milhões de poupadores, incluindo fundos de pensão, investem indiretamente nessas empresas. Um colapso do setor afetaria diretamente suas economias e abalaria a confiança global, ecoando o estouro da bolha "ponto com" de março de 2000, que resultou em uma recessão em 2001 e a queda de quase 80% do Nasdaq.
'Incêndio financeiro'
A questão da capacidade das autoridades para apagar um "incêndio financeiro" é crucial. Em 2008, governos controlaram o caos injetando bilhões em bancos e aumentando garantias sobre depósitos, enquanto bancos centrais cortavam taxas de juros. Contudo, alguns temem que essas opções sejam limitadas hoje. A dívida do governo do Reino Unido, por exemplo, saltou de menos de 50% para quase 100% da renda nacional após as intervenções de 2008, a COVID-19 e os subsídios energéticos de 2022. A capacidade de empréstimo governamental está muito mais restrita.
Mohammed El-Erian compara a situação a um corpo de bombeiros sem água: "Governos e bancos centrais tiveram que responder a crise após crise e, ao fazerem isso, reduziram sua capacidade de resposta". O Fundo Monetário Internacional (FMI) corrobora, alertando que os múltiplos desafios econômicos mundiais ocorrem em um momento de "espaço para políticas públicas reduzido".
As relações internacionais também estão fragilizadas. Em 2008, líderes se reuniram em Washington e Londres para coordenar a resposta. Gordon Brown, então primeiro-ministro, creditou a forte cooperação internacional por evitar uma depressão. Hoje, com divergências entre países ricos sobre comércio, Otan e outros temas, a união pode ser mais difícil. O FMI alertou recentemente que a "cooperação internacional está mais fraca" agora, o que implica que, em uma era de conflitos e políticas isolacionistas como a "América Primeiro" do presidente dos EUA, Donald Trump, os governos podem ter dificuldade em superar suas diferenças, como fizeram em 2008. Brown, por sua vez, tem alertado sobre os perigos de abordagens isolacionistas.
Fragilidades financeiras
Apesar dos riscos, Sarah Breeden demonstra otimismo, argumentando que os bancos atuais têm maior capacidade de absorver choques, estando "muito mais capitalizados". "Não acho que, se entrarmos em crise, será na mesma escala", diz ela. Mohammed El Erian concorda, em parte: "Não estamos exatamente na situação de 2008, porque não acredito que o sistema bancário, e, portanto, o dinheiro dos depositantes e o sistema de pagamentos, estejam em risco. Mas estamos em um momento semelhante ao de 2008, no sentido de que o sistema financeiro pode agravar as fragilidades econômicas que nos levam à recessão". Ele, contudo, alerta para o impacto desproporcional: "As fragilidades econômicas e financeiras tendem a expor os segmentos mais vulneráveis da população. Eles têm a menor resiliência e tendem a ser atingidos com particular intensidade."
Bobby Seagull, agora professor de matemática, observa que os mercados financeiros estão ainda mais complexos. "Você está meio que passando instrumentos financeiros de uma pessoa para outra, sem ter certeza do que há dentro deles. E acho que a preocupação é que, se as coisas acontecerem, elas se intensificam muito rapidamente nos mercados financeiros. E é aí que você não quer ser a última pessoa a ficar com esse pacote", conclui, sublinhando a incerteza e o risco inerente.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário