AGRICULTURA EM RISCO
El Niño se intensifica e coloca em xeque produção de alimentos no Brasil
Com 37% de probabilidade de intensidade máxima, El Niño traz desafios para produtores do Sul ao Matopiba, afetando café, soja e trigo.
A agricultura brasileira enfrenta um cenário desafiador com a previsão de intensificação do fenômeno El Niño nos próximos meses, que pode se tornar "muito forte" até o final do ano. Especialistas alertam, nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, para sérios impactos na produção agrícola ao longo de 2026 e 2027, com reflexos diretos nos preços dos alimentos e na economia do país. A preocupação, levantada pela meteorologista Desirée Brandt, da Nottus, é que o fenômeno, agravado pelo aquecimento global, comprometa a subsistência de produtores e o acesso a produtos essenciais, demandando atenção urgente de agricultores e autoridades.
Desirée Brandt, meteorologista e sócia da Nottus, enfatiza a gravidade da situação. "Há indicação de que até o fim do ano o fenômeno seja muito forte e nós sabemos que quanto mais forte for o El Niño, mais sentiremos seus efeitos", afirmou a especialista. Segundo suas projeções, os modelos climáticos apontam uma probabilidade de 30% para um El Niño forte e de 37% para uma intensidade muito forte.
A meteorologista destaca que, mesmo com possíveis revisões nas projeções internacionais, os impactos do fenômeno serão amplificados pelo aquecimento global. "Temos um planeta mais aquecido e isso aumenta os efeitos do El Niño, sobretudo no próximo semestre", explicou Brandt, sublinhando que as mudanças climáticas já em curso potencializam a severidade dos eventos climáticos extremos.
Os primeiros sinais desta intensificação já preocupam os agricultores de culturas de inverno, como trigo, milho segunda safra e café. Na região Sul do Brasil, as próximas semanas e meses preveem aumento das chuvas. Embora o excesso hídrico possa ser benéfico para a reposição de água no solo, ele também representa um risco significativo, dificultando a colheita do milho segunda safra e podendo comprometer a qualidade e o valor dos grãos.
Para os cafeicultores, um inverno mais quente, embora afaste o risco de geadas tardias, traz novas preocupações. A combinação de temperaturas elevadas e umidade, com episódios de frio mais espaçados, pode induzir floradas fora de época em importantes áreas produtoras de Minas Gerais e do Sudeste. De acordo com Brandt, essa desregulação pode afetar drasticamente o potencial produtivo da próxima safra de café, especialmente porque se trata de um ciclo de bienalidade negativa, naturalmente com menor produção.
Produtores de soja, que se preparam para a safra de verão, também enfrentarão grandes desafios. Modelos climáticos indicam volumes de chuva acima da média no Centro-Oeste, mas com uma distribuição irregular. "Pode chover muito em poucos dias e depois abrir longos períodos secos e quentes. Isso dificulta o planejamento do produtor e aumenta o risco de replantio", alertou a meteorologista, ressaltando o custo financeiro e emocional de replantar uma lavoura.
A preocupação se estende ainda mais para o milho segunda safra de 2027. O risco de uma interrupção precoce das chuvas e o aumento das temperaturas durante o desenvolvimento das lavouras é alto, um cenário que pode comprometer severamente a produtividade e a rentabilidade dos agricultores.
No Matopiba — a vasta região agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o alerta é elevado, especialmente para a fruticultura. Algumas culturas necessitam de períodos secos para a concentração ideal de açúcar, mas o El Niño pode trazer um excesso de calor combinado à falta de chuva, prejudicando o desenvolvimento e a qualidade das frutas. Isso impacta diretamente a renda dos fruticultores e a oferta de frutas para o consumidor.
Frutas de clima temperado, cultivadas no Sul do país, também podem sofrer as consequências. Um inverno mais quente pode reduzir as horas de frio necessárias para garantir a qualidade e a produtividade, enquanto o excesso de chuva dificulta o manejo e aumenta o risco de doenças nos pomares, ameaçando colheitas inteiras e o sustento de famílias que dependem dessa produção.
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