ALERTA CLIMÁTICO

El Niño retorna com 80% de chance de intensificar seca e calor na Amazônia em 2026

Imagem aérea de grandes áreas de floresta amazônica consumidas por queimadas.
Queimadas na Amazônia: o risco de El Niño agrava a situação ambiental.

Fenômeno natural, associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, tem probabilidade elevada de formar-se até o fim de 2026, reacendendo preocupações com incêndios, ondas de calor e crise humanitária no bioma.

O Centro de Previsão Climática (CPC) anunciou que há 80% de probabilidade de formação de um evento de El Niño até o final de 2026. Embora a intensidade ainda seja incerta, a expectativa reacende o alerta para riscos climáticos significativos na Amazônia, um cenário que já provocou uma crise humanitária e ambiental sem precedentes entre 2023 e 2024.

A possibilidade de repetição do fenômeno em 2026, antecipada por climatologistas, reforça a urgência de políticas públicas voltadas à adaptação e mitigação de seus efeitos, conforme aponta o mais recente boletim do órgão.

O El Niño é um ciclo natural caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico na região equatorial, com repercussões globais. No Brasil, sua ocorrência geralmente resulta em maior volume de chuvas na região Sul, enquanto Norte e Nordeste enfrentam períodos de estiagem mais prolongada e temperaturas mais elevadas em geral.

Na Amazônia, anos de El Niño como os de 1998-1999, 2010, 2015-2016 e, mais recentemente, 2023-2024, já registraram secas severas. O episódio mais recente, porém, foi agravado por ondas de calor extremas que intensificaram a perda hídrica do solo, rios e vegetação. Essa combinação resultou em níveis críticos de rios, incêndios florestais em larga escala, mortalidade de animais e dificuldades de acesso à água e transporte para as populações locais.

Degradação acelerada e impactos na biodiversidade

Secas intensas e calor extremo são fatores cruciais na degradação da floresta amazônica, que se soma ao desmatamento. Estima-se que, entre 2001 e 2018, cerca de 5,5% da cobertura florestal já estava sob alguma forma de degradação, um índice que pode alcançar 38% com a influência de eventos de seca extrema. Essa deterioração ambiental compromete a absorção de carbono pelas árvores e impacta severamente a biodiversidade.

Estudos realizados em Manaus durante a seca de 2023-2024 registraram mortalidade incomum de preguiças, aves, serpentes e roedores, atribuída ao estresse fisiológico causado pelas altas temperaturas e à redução do acesso à água. Na região de Tefé, no interior do Amazonas, temperaturas recordes de até 41 ºC em lagos monitorados foram associadas à alta mortalidade de peixes, botos e tucuxis.

O período de tempo seco e quente também eleva significativamente a probabilidade de incêndios florestais. Em 2024, a Amazônia registrou a pior temporada de fogo de sua história, com 6,64 milhões de hectares queimados. Para 2026, projeções indicam perigo extremo de fogo em amplas porções dos estados do Amazonas e do Pará.

Eventos compostos e a nova realidade climática

Climatologistas definem como 'evento composto' a ocorrência simultânea ou sequencial de dois ou mais fenômenos extremos, como seca, calor intenso e incêndios. Essa combinação potencializa os impactos, tornando-os mais severos e difíceis de gerenciar. O ano de 2024 exemplificou essa dinâmica, com incêndios antecipados no Pantanal e chuvas intensas no Sul do país, alimentadas por umidade transportada de outras regiões, culminando em um desastre climático no Rio Grande do Sul.

A degradação da qualidade do ar, intensificada pela fumaça das queimadas, também é uma consequência grave. Em 2024, picos de material particulado fino (PM2,5) na Amazônia superaram em 906% o limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Pesquisadores discutem uma possível mudança de padrão climático na Amazônia, onde o calor extremo deixa de ser um fator secundário e passa a ser central na intensificação das secas. Esse ciclo recorrente de menos chuva e temperaturas mais altas pode indicar uma nova fase climática para a região, alinhada a tendências globais observadas nos Estados Unidos, Europa e China, intensificadas pela emissão de gases de efeito estufa.

Urgência de medidas de adaptação e mitigação

A resiliência da Amazônia a choques ambientais tem diminuído desde os anos 2000. Diante da frequência crescente de eventos compostos, torna-se imperativa a implementação de uma agenda política e científica robusta. Embora medidas de resposta imediata, como a ampliação do monitoramento ambiental e operações de combate a incêndios, tenham sido adotadas em estados como Amazonas e Pará, persistem lacunas significativas na construção de uma agenda de adaptação de longo prazo.

A Iniciativa MAP (Madre de Dios-Peru, Acre-Brasil e Pando-Bolívia) exemplifica a mobilização coletiva para enfrentar eventos extremos, compartilhando prognósticos e estratégias. No entanto, é crucial expandir o planejamento territorial, o acesso à água potável, a infraestrutura resiliente e políticas para populações vulneráveis.

No campo científico, a seca de 2023-2024 evidenciou a necessidade de aprofundar a compreensão sobre os impactos combinados de calor extremo e seca, além de fortalecer o monitoramento integrado do clima, rios e biodiversidade, articulando conhecimento científico e saberes locais. Contudo, a eficácia dessas medidas depende intrinsecamente do avanço global na redução das emissões de gases de efeito estufa e do financiamento adequado para alternativas energéticas e fundos para a preservação florestal, que ainda se mostram aquém da escala necessária.

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