FENÔMENO CLIMÁTICO AGRAVA RISCOS
El Niño ameaça safra e pode encarecer alimentos no Brasil
Especialistas alertam para impactos na produção de milho, café, carnes e hortaliças, com projeção de aumento da inflação em 2026. Entenda os efeitos mais severos.
O fenômeno climático El Niño, marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, traz consigo um alerta para a produção agrícola e o bolso do consumidor brasileiro. Decisões sobre a gestão de riscos climáticos e seus impactos econômicos já começam a ser mapeadas por especialistas, diante da expectativa de que o fenômeno possa alterar os padrões de chuva e temperatura no país. A preocupação central reside na potencial ameaça à oferta de alimentos básicos, com projeções indicando um possível encarecimento generalizado em 2026, afetando diretamente a dignidade e o poder de compra da população.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima mais de 60% de chances de um evento muito forte entre novembro e janeiro. Esse cenário climático intensifica a atenção sobre a produção agrícola nacional, que já convive com os efeitos de irregularidades hídricas.

Os primeiros impactos devem ser sentidos em hortaliças, que são mais sensíveis a variações climáticas. Se o El Niño se confirmar como mais intenso, alimentos cultivados em ciclos de safra correm o risco de encarecer já no próximo ano.
Segundo Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, os principais produtos que deverão sentir os efeitos são milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz. O setor de laticínios também pode ser impactado, dependendo do volume de chuvas registrado no Sul do país.
Em contrapartida, o Ministério da Fazenda considera que o fenômeno pode levar ao aumento da previsão oficial para a inflação em 2026, superando a estimativa de 4,5% divulgada em maio.
A seguir, um detalhamento sobre como as produções de itens essenciais podem ser afetadas:
Café
A irregularidade nas chuvas, com períodos de estiagem seguidos por precipitações intensas, aumenta o risco de floradas antecipadas e desuniformes nas lavouras de café. Flores que se formam nessas condições podem ser abortadas ou resultar em grãos de menor tamanho e qualidade. Temperaturas elevadas e a consequente perda de água no solo também são fatores de estresse. Para o café arábica, tipo mais sensível e apreciado no Brasil, pode haver comprometimento da qualidade. O setor, que iniciava o ano com expectativa de safra recorde superior a 66 milhões de sacas, agora teme perdas de até 25% na produção de 2027, caso o El Niño se mostre mais severo, conforme alerta Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). As chuvas recentes em regiões produtoras já atrasaram a colheita do café conilon, reduzindo qualidade e produtividade, além de favorecer pragas e fungos. Esse cenário pode levar à especulação no mercado internacional e ao aumento do preço da matéria-prima, repassado aos consumidores.

Milho
Em anos de El Niño, a produtividade média global de milho tende a cair cerca de 4%, especialmente em regiões tropicais. No Brasil, o impacto principal recai sobre a segunda safra. Chuvas irregulares atrasam o plantio e a colheita da soja no Centro-Oeste, reduzindo o período ideal para o plantio de milho. Diante disso, produtores podem optar por diminuir a área plantada ou substituí-lo por sorgo, buscando reduzir riscos, segundo Glauber Silveira, diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho). O excesso de chuva no Sul também gera preocupação, com potencial redução de produtividade e aumento de doenças. Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, aponta que o aumento dos custos e a diminuição das margens de lucro também limitam o crescimento da área plantada, podendo afetar os preços internacionais em caso de queda na produção do Mato Grosso.
Carne
Um eventual aumento no preço do milho em 2027, devido aos impactos do El Niño, deverá refletir no custo da carne, visto que o grão é um componente essencial da ração animal para confinamento. Além disso, a disponibilidade de pastagens pode ser reduzida pela seca e déficit hídrico. Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que isso prejudica a produção de leite e o ganho de peso dos animais de abate. O calor excessivo também causa estresse e diminui o consumo dos animais.
Frutas e Hortaliças
No Sul do Brasil, chuvas mais volumosas podem causar podridão, perda de qualidade e atrasos no plantio de alimentos como cebola, batata, tomate e cenoura. A maçã pode ser afetada durante a florada e formação dos frutos, com aparecimento de doenças, enquanto a uva, no Rio Grande do Sul, pode ter produção reduzida pelo excesso de umidade. Em outras regiões, a redução do nível de reservatórios dificulta a irrigação, preocupando produtores de frutas sensíveis como manga, mamão e uva. Por outro lado, o Nordeste pode se beneficiar do tempo seco e altas temperaturas para o cultivo de melão e melancia em áreas irrigadas. Para a laranja, temperaturas acima da média no cinturão citrícola paulista podem prejudicar a florada, causando abortamento de flores e queda de frutos jovens. A produção de laranja, já com estimativas de redução devido a fatores como falta de rentabilidade e menor consumo, tende a ser ainda menor, elevando o preço do suco e diminuindo a qualidade das frutas, segundo Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Cana-de-açúcar
O fenômeno El Niño pode provocar chuvas fora de época no Centro-Sul, principal região de moagem de cana no país. O excesso de umidade pode comprometer a qualidade da matéria-prima e retardar o acúmulo de sacarose, elevando o risco de colheita fora do ponto ideal de maturação. Nas regiões Norte e Nordeste, a seca e o calor tendem a gerar estresse hídrico e térmico, afetando o desenvolvimento da planta.

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