FENÔMENO CLIMÁTICO GLOBAAL
El Niño ameaça safra de alimentos e acende alerta para alta de preços no Brasil
O fenômeno climático El Niño pode impactar significativamente a produção de alimentos básicos como milho, café e arroz, levando a uma elevação nos preços para o consumidor final. Entenda os riscos.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicou, nesta terça-feira, 07/07/2026, uma probabilidade superior a 60% de um evento de El Niño muito forte ocorrer entre novembro e janeiro. A decisão, baseada no aquecimento das águas do Oceano Pacífico, gera apreensão em todo o país, pois o fenômeno climático altera os padrões de chuva e temperatura, com potencial para impactar diretamente a produção de alimentos e, consequentemente, os preços para o consumidor. Pesquisadores alertam que os efeitos serão sentidos em diversos setores da agricultura brasileira.
O El Niño, conhecido por causar secas em algumas regiões produtoras e chuvas intensas em outras, já acende um alerta sobre a estabilidade do abastecimento e o custo de vida. "Certamente vai impactar o preço dos alimentos. É meio que inevitável, principalmente se afetar as janelas de plantio ou mesmo prejudicar a produção na hora da colheita", afirma Leandro Gilio, pesquisador no Insper Agro Global. Os primeiros impactos tendem a ser observados em hortaliças, mais sensíveis a variações climáticas, com possibilidade de encarecimento de alimentos cultivados em safra já no próximo ano.
A consultoria Agro do Itaú BBA projeta que produtos essenciais como milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz estarão entre os mais afetados. O setor leiteiro também pode sofrer reflexos, dependendo do volume de chuvas no Sul do país. Para o café, especificamente em Varginha (MG), um dos principais polos de exportação do grão, a preocupação é com a qualidade e produtividade. O fenômeno pode gerar irregularidade nas chuvas, com episódios de estiagem seguidos por precipitações intensas, prejudicando as floradas e a formação dos grãos, além de favorecer pragas e fungos. O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio da Silva, estima que a oferta pode ser impactada, levando a especulações no mercado internacional e aumento de preços da matéria-prima, que serão repassados aos consumidores.
No caso do café arábica, a produção de 2027 já é vista com preocupação. O setor espera uma potencial perda de até 25% caso o El Niño se intensifique. Quanto ao milho, a produtividade média global pode cair cerca de 4%, afetando principalmente regiões tropicais. No Brasil, a segunda safra de milho e o plantio de soja no Centro-Oeste correm riscos de atraso devido a chuvas irregulares. Alguns produtores cogitam reduzir a área plantada ou optar por culturas menos arriscadas, como o sorgo, em busca de menor exposição a perdas. O especialista Francisco Queiroz, da Consultoria Agro do Itaú BBA, sinaliza que uma queda na produção de Mato Grosso pode reverberar nos preços internacionais do milho.
O aumento no preço do milho, um componente crucial na ração animal, tende a elevar também o custo da carne em 2027. A disponibilidade de pastagens pode ser reduzida devido à seca e ao déficit hídrico, prejudicando a produção de leite e o ganho de peso dos animais destinados ao abate. O calor excessivo também causa estresse em rebanhos, que passam a comer menos, conforme explica Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Frutas e hortaliças também estão na lista de itens vulneráveis. No Sul do país, o excesso de chuva pode causar podridão, perda de qualidade e atrasos no plantio de alimentos como cebola, batata, tomate e cenoura. A maçã pode ser afetada na fase de florada e formação de frutos, e a uva, no Rio Grande do Sul, pode ter sua produção comprometida pela umidade. A irrigação também pode ser dificultada em algumas regiões pela redução do nível de reservatórios, preocupando produtores de frutas como manga, mamão e uva. Em contrapartida, o Nordeste pode se beneficiar com tempo seco e altas temperaturas para o cultivo de melão e melancia em áreas irrigadas.
Para a laranja, a expectativa é de temperaturas acima da média no cinturão citrícola paulista, o que pode prejudicar a florada e a queda de frutos jovens. A safra já enfrentava redução e, com o El Niño, a tendência é de que os preços do suco aumentem e a qualidade das frutas diminua, de acordo com Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA.
A cana-de-açúcar também deve sentir os efeitos. No Centro-Sul, chuvas fora de época e excesso de umidade podem reduzir a qualidade da matéria-prima e atrasar o acúmulo de sacarose. Já no Norte e Nordeste, a seca e o calor podem comprometer o desenvolvimento da planta. O Ministério da Fazenda sinalizou que deve revisar para cima a previsão de inflação para 2026, com a expectativa de alta de preços superior aos 4,5% estimados anteriormente.
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