INFLAÇÃO ALERTA

Economistas veem IPCA-15 piorar e pressionar Banco Central

Fachada do Banco Central em Brasília, edifício imponente que representa a política monetária brasileira.
Fachada do Banco Central em Brasília.

Taxa de 0,89% de abril esconde alta em bens e serviços; Copom se reúne em 29 de abril de 2026.

A prévia da inflação oficial no Brasil, o IPCA-15 de abril, acendeu um alerta entre economistas, que veem uma piora na composição do índice, apesar de sua taxa de 0,89% ter ficado ligeiramente abaixo do esperado. Esta análise, tornada pública nesta terça-feira, 28 de abril de 2026, intensifica a pressão sobre o Banco Central para manter a cautela em sua próxima decisão sobre a taxa Selic, um fator determinante para o orçamento familiar e a estabilidade econômica.

O Copom (Comitê de Política Monetária) definirá o juro-base na quarta-feira, 29 de abril de 2026. Atualmente em 14,75% ao ano, a expectativa do mercado financeiro é de um corte de 0,25 ponto percentual, movimento que impacta diretamente o crédito e os investimentos.

O IPCA-15, considerado a prévia da inflação, registrou uma taxa de 0,89%, inferior às projeções do mercado, que variavam entre 0,90% e 1,02%. Contudo, Alexandre Maluf, economista da XP, ressaltou que este número não mascara uma "leitura ruim" da composição do índice.

Maluf explicou que todas as métricas cruciais para a política monetária do Banco Central mostraram aceleração de março para abril. Segundo ele, a média dos núcleos da inflação se afasta progressivamente da meta de 3%, gerando preocupação.

"Temos tudo para ver um IPCA de abril também bastante alto", previu o economista. A taxa de 0,89% representa o maior índice para o mês desde 2022, quando atingiu 1,73%, e o percentual mensal mais elevado desde fevereiro de 2025 (1,23%).

Maluf detalhou que o resultado geral abaixo das expectativas foi impulsionado pela deflação nas passagens aéreas. Ele esclareceu que a metodologia do IBGE coleta os preços com dois meses de antecedência.

"No IPCA-15 de abril, os preços das passagens aéreas foram coletados em fevereiro, ou seja, antes da intensificação do conflito. Nas próximas leituras, a partir de maio, devemos ver passagens aéreas mais caras devido ao gargalo no querosene de aviação", alertou o economista.

Este subitem, que havia registrado uma alta de 5,94% em março, apresentou uma deflação de 14,32% em abril, impactando artificialmente o índice geral.

"Destaco que a composição, mesmo com o índice principal vindo abaixo, não foi benigna. Observa-se que as principais métricas, como os núcleos da inflação e os serviços adjacentes, estão em aceleração", pontuou Maluf.

Ele complementou que a média dos núcleos atingiu 5% no acumulado de três meses, enquanto os serviços subjacentes se aproximam dos 6%. A pressão no IPCA-15 também veio dos preços de produtos industrializados, como bens duráveis (automóveis e eletrodomésticos) e semiduráveis (vestuário), que impactam diretamente o bolso do consumidor.

Pressões Inflacionárias se Intensificam em Alimentos e Combustíveis

Maluf apontou que alimentos, com taxa mensal de 1,77% em abril, e combustíveis representam outros focos de atenção.

"Em decorrência do conflito no Oriente Médio, a gasolina teve um grande destaque, com alta de 6,2% no mês, uma leitura muito forte e esperada diante do cenário. O preço do óleo diesel também subiu expressivos 16%", detalhou o economista.

Leonardo Costa, economista do ASA, corroborou a análise, afirmando que o balanço qualitativo do IPCA-15 de abril foi pior que o projetado. Ele observou que os bens industrializados sofreram mais pressão do que o esperado e apresentou duas hipóteses para esse movimento de alta:

— Mudança de sazonalidade, com reajustes mais concentrados no início do ano;— Antecipação de preços por agentes econômicos como reflexo do risco geopolítico do conflito no Oriente Médio, mesmo com a valorização cambial observada durante o período de coleta.

Segundo Costa, os serviços mantêm um patamar estruturalmente elevado, com a média móvel de três meses em 5,3% anualizados, "bem acima do teto do regime de metas de 4,5%". O ASA projeta uma inflação de 5% para o ano de 2026, impactando diretamente o poder de compra e as decisões financeiras das famílias.

"A inflação corrente permanece sob pressão, com o auge dos efeitos do conflito no Oriente Médio ainda se materializando no IPCA-15 de abril. Para o curto prazo, projetamos uma desaceleração marginal, com o arrefecimento do impacto em combustíveis e alimentação no domicílio, mas alertamos para o risco de núcleos mais elevados por efeitos indiretos do conflito geopolítico", concluiu Costa.

O Itaú informou que a alta de 0,89% ficou próxima à sua estimativa de 0,90%. Contudo, o relatório do economista-chefe, Mario Mesquita, aponta que o "qualitativo foi pior", destacando uma surpresa altista em produtos industriais subjacentes, "concentrada principalmente em higiene pessoal e vestuário, possivelmente já refletindo efeitos indiretos do choque do petróleo" sobre os custos de produção.

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