DÍVIDA LIMITA FUTURO
Economistas alertam: Dívida alta barra consumo e crescimento do PIB
Analistas preveem PIB desacelerado em 2026; Novo Desenrola tenta aliviar cenário.
O elevado nível de endividamento entre as famílias brasileiras e o setor público ameaça frear a expansão econômica da nação, impactando diretamente o poder de compra e o bem-estar social. Economistas, como Felippe Serigati e Ecio Costa, apontam que o recorde no comprometimento da renda com dívidas limita o consumo e o investimento, travando o Produto Interno Bruto (PIB). Consciente do cenário, o Governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara o lançamento do Novo Desenrola para esta segunda-feira, 4 de maio de 2026, buscando aliviar a pressão financeira sobre milhões de brasileiros.
O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de juros por mês, por exemplo, atingiu um patamar recorde em fevereiro, refletindo a dura realidade enfrentada por muitos. Isso significa que, a cada real que entra nos lares, uma parcela crescente é direcionada para quitar débitos, e não para fortalecer o consumo ou impulsionar investimentos, peças cruciais para o dinamismo do PIB.
As despesas de consumo das famílias e do governo possuem um peso significativo na composição do Produto Interno Bruto (PIB), sob a ótica da demanda. Juntas, essas despesas representaram 82,5% do PIB em 2025.
Apesar de sua relevância, o consumo das famílias apresentou uma desaceleração, crescendo apenas 1,3% no ano passado, em contraste com a alta de 5,1% registrada em 2024. Já a despesa de consumo do governo avançou 2,1% em 2025, um ligeiro aumento em relação aos 2,0% do ano anterior.
Felippe Serigati, economista e pesquisador do FGV Agro (Centro de Estudos do Agronegócio), ressalta a correlação direta entre o endividamento e a retração do consumo. "Cada real adicional que entrar no domicílio tem que ser alocado para pagar dívida, e não para ampliar o consumo ou realizar um investimento", explicou ao Poder360.
Dados divulgados pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) revelam que a taxa de endividamento das famílias brasileiras alcançou 80,4% em março de 2026. Este é o patamar mais elevado desde o início da série histórica, em 2015.
Este percentual alarmante corresponde à fatia de famílias que reportaram possuir dívidas a vencer, incluindo modalidades como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e parcelamentos de carro e casa.
"Essa situação não é sustentável. O endividamento elevado é problemático, mas o principal indicador é a inadimplência. O problema não é ter dívida, mas não conseguir pagá-la", pontuou Serigati, enfatizando a importância de monitorar a capacidade de pagamento das famílias.
No cenário do setor público, a Dívida Bruta do Governo Geral elevou-se para 80,1% do PIB em março de 2026. Esse indicador registrou um aumento de 8,7 pontos percentuais durante a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ecio Costa, economista e professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), alerta para o crescente volume de gastos governamentais e o custo oneroso com o pagamento de juros da dívida pública. "A problemática é que, quanto mais o governo gasta e se endivida, maior fica o custo de manutenção e rolagem dessa dívida. Com juros elevados, há um deficit nominal causado por esse aumento de gastos. Isso também gera inflação", detalhou Costa, conectando a gestão fiscal à estabilidade de preços.
Expansão do PIB limitada
O mercado financeiro revisou para baixo, nesta segunda-feira, 27 de abril de 2026, a projeção de crescimento do PIB para este ano, de 1,86% para 1,85%, conforme o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central. Em 2025, a atividade econômica brasileira expandiu 2,3%.
Costa avalia que a alta de 2025 foi aquém do potencial do país. "Foi uma economia que não decolou. Cresceu, mas muito pouco diante do aumento do endividamento", afirmou.
O economista vincula a limitação do crescimento do PIB diretamente ao endividamento das famílias e do setor público. "Com alto endividamento de ambos os lados, as famílias ficam pressionadas e não conseguem consumir mais, porque parte relevante da renda é destinada ao pagamento de dívidas. Isso desacelera a economia pela falta de expansão do consumo", explicou.
Somente com o pagamento de juros, há um comprometimento superior a 10% da renda mensal das famílias brasileiras. Ao considerar amortização e encargos, o percentual alarmante atinge 29,7%, segundo dados do Banco Central, revelando a severidade da carga financeira sobre os lares.
Novo Desenrola
O Governo Lula lançará, nesta segunda-feira, 4 de maio de 2026, o Novo Desenrola. A expectativa é que o programa de renegociação de dívidas ofereça perdão de até 90% dos débitos, com juros baixos (de até 1,99%). Esta é a nova aposta do Planalto em ano eleitoral para injetar fôlego na economia e no cotidiano das famílias.
No entanto, Ecio Costa adverte que o programa pode impulsionar as famílias novamente ao consumo e, consequentemente, a um novo ciclo de endividamento. "É um cenário perfeito para uma tempestade que vai acontecer mais adiante. Você não tem educação financeira nenhuma, tem famílias que estão também muito enroscadas com as bets, que viraram uma verdadeira doença aqui no país", criticou, apontando para a falta de sustentabilidade a longo prazo.
Em pronunciamento na cadeia de rádio e TV na quinta-feira, 30 de abril de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que os brasileiros que aderirem ao Desenrola 2.0 terão o acesso a plataformas de apostas online bloqueado por um ano, visando mitigar um dos fatores que contribuem para o endividamento.
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