REPERCUSSÃO NO MERCADO

Donald Trump declara "amar a inflação" em meio à alta de preços nos EUA

Gráfico mostrando a alta dos preços de combustíveis nos Estados Unidos, com o título "Combustíveis têm puxado a alta da inflação nos EUA".
Combustíveis têm puxado a alta da inflação nos EUA — Foto: Getty Images via BBC

Dados recentes revelam a maior aceleração inflacionária em três anos nos Estados Unidos, com custos de energia liderando a escalada. A declaração do presidente gerou críticas e levanta preocupações sobre a política monetária.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quinta-feira, 11/06/2026, que "ama a inflação" após a divulgação de dados que indicam a maior aceleração de preços no país em três anos. A declaração ocorreu na Casa Branca, onde Trump comentou a nova escalada inflacionária que afeta a economia americana.

Dados divulgados pelo Escritório de Estatísticas do Trabalho (BLS, na sigla em inglês) apontaram um aumento de 4,2% nos preços em maio, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O avanço, mais acentuado que os 3,8% registrados em abril, é atribuído principalmente à elevação dos custos de energia, impactados pela guerra entre EUA e Irã.

"Eu amo isso. Os números foram ótimos. Sabe o que eu realmente amo? Eu amo a inflação", afirmou Trump.

O presidente prometeu que a inflação "cairá como uma pedra" com o fim do conflito com o Irã. Mais tarde, as forças armadas dos EUA realizaram bombardeios contra o país persa. Reagindo aos números, Trump informou que operações militares noturnas retiraram "milhões de barris" de petróleo do Irã, o que, em sua avaliação, contribuiu para uma ligeira queda nos preços. "Quando esse conflito acabar… você verá o [preço do] petróleo cair para onde estava antes", declarou a jornalistas.

Apesar das declarações, o principal índice global do petróleo, o Brent, mantém-se significativamente acima dos níveis pré-conflito. Posteriormente, Trump afirmou ao jornal New York Post que seus comentários foram descontextualizados, e que a inflação está "muito mais baixa do que o previsto", mesmo com a guerra.

Impacto no bolso do consumidor e na política monetária

A quarta-feira marcou o terceiro mês consecutivo de alta no Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA, com os consumidores sentindo os efeitos da guerra. A inflação, embora ainda abaixo do pico de 9,1% atingido em meados de 2022 durante o governo de Joe Biden, representa um desafio político para Trump, especialmente com as eleições legislativas de novembro se aproximando e a economia sendo uma preocupação central para os eleitores.

Uma inflação elevada aumenta a pressão sobre o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) para elevar as taxas de juros, buscando conter os gastos e, consequentemente, os aumentos de preços.

As contas de energia, incluindo gás e eletricidade, apresentaram uma alta de quase um quarto em maio comparado ao ano anterior, com a gasolina respondendo pela maior parte desse aumento. O preço médio do galão de gasolina comum nos EUA atingiu US$ 4,15 (R$ 4,73 por litro), um aumento considerável desde os US$ 2,98 (R$ 3,40 por litro) de 28 de fevereiro, data em que Trump intensificou seus ataques ao Irã.

Em resposta aos ataques, o Irã fechou o estreito de Ormuz, crucial para o transporte de aproximadamente um quinto do petróleo e gás mundial, impactando a oferta. Os militares dos EUA realizaram ataques ao Irã pela segunda vez em dois dias na noite de quarta-feira, intensificando o conflito que começou há mais de três meses, apesar de um cessar-fogo em abril.

Dados do BLS também indicaram elevação nos custos de passagens aéreas, cuidados pessoais e médicos, lazer e comunicação. Economistas alertam que, mesmo com uma resolução rápida do conflito, a normalização do fluxo de bens pelo estreito de Ormuz pode levar até 2027.

A promessa de Trump em sua campanha de 2024 de reduzir a inflação ganha contornos complexos com sua declaração. Críticos, como o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, reagiram nas redes sociais, como no X: "O desprezo dele por vocês não tem limites." Trump já havia sido criticado anteriormente por afirmar que a busca pela não proliferação nuclear do Irã não era influenciada pela situação financeira dos americanos.

Desafios para a política monetária

A alta inflacionária representa um desafio para Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, que na próxima semana terá sua primeira decisão sobre taxas de juros. Tradicionalmente, quando a inflação excede a meta de 2% do Fed, o banco central eleva as taxas para conter os gastos e controlar os preços. No período que antecedeu a nomeação de Warsh, Trump pressionou o antecessor, Jerome Powell, e o banco central para reduzir as taxas.

Economistas preveem que as taxas permaneçam entre 3,5% e 3,75% no próximo mês, mas alertam que a persistência da inflação pode forçar o Fed a aumentá-las. Stephen Brown, economista-chefe para América do Norte da Capital Economics, avalia que a alta de maio não é suficiente para "fornecer munição" aos que defendem o aumento das taxas. No entanto, Isaac Stell, gestor de investimentos da Wealth Club, considera que um aumento é "a conclusão mais lógica com base nos dados de hoje combinados com os sólidos números de empregos da semana passada."

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