VIGILÂNCIA EM SAÚDE EM ALERTA
Doenças respiratórias continuam a causar mortes após a pandemia, revelam dados do Ministério da Saúde
Mesmo com o fim da pandemia de Covid-19, pneumonia, gripe e coronavírus ainda registram números expressivos de óbitos no Brasil e no Rio Grande do Norte, impulsionados pela queda na adesão vacinal e abandono de cuidados básicos de higiene.
A percepção de que a pandemia de Covid-19 restabeleceu a normalidade social tem levado ao abandono de hábitos básicos de higiene e à queda na adesão vacinal. Esse cenário, alertam os sistemas de vigilância em saúde, permite que doenças virais continuem a ocasionar mortes. Dados atualizados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, compilados pela Tribuna do Norte, analisam o comportamento de pneumonia, gripe e Covid-19 entre 2025 e os primeiros meses de 2026, revelando a expressiva mortalidade dessas doenças em todo o território nacional e no Rio Grande do Norte. Juntas, as três patologias vitimaram 108.400 pessoas no País e 1.629 no Rio Grande do Norte somente em 2025.
Em 2025, a pneumonia foi a principal causa de óbito, com 103.267 mortes no Brasil, sendo 1.605 no Rio Grande do Norte. O ritmo alarmante da doença persiste em 2026: até o momento, foram registradas 24.751 mortes no país e 394 no estado potiguar.
O vírus da Influenza, em uma escala menor, mas ainda preocupante, causou 3.476 mortes no país em 2025, com 22 ocorrências no Rio Grande do Norte. Em 2026, a gripe provocou 459 óbitos no Brasil, sete deles no estado. O coronavírus, por sua vez, encerrou 2025 com 1.657 óbitos no país e 21 no Rio Grande do Norte. Em 2026, a Covid-19 acumula 261 mortes no Brasil, com duas confirmadas no estado até o momento.
A infectologista Gisele Borba, do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN), explica que Influenza e Covid-19 possuem transmissão respiratória, enquanto pneumonias, em geral, não são transmitidas entre pessoas, exceto as atípicas. A especialista ressalta que a mortalidade dessas doenças é mais acentuada em idosos e crianças, devido à deficiência imunológica nesses grupos etários e à presença de comorbidades. A vacinação é apontada como a forma mais eficaz de proteção, apesar da baixa procura por parte da população em alguns casos.
Ricardo Valentim, professor do Laboratório de Inovação em Tecnologias da Saúde (LAIS/UFRN), acrescenta que o número historicamente elevado de óbitos por pneumonia se deve, frequentemente, a sua ocorrência como complicação bacteriana ou viral secundária a outras infecções. Um quadro de Influenza em idosos vulneráveis, por exemplo, pode evoluir para uma pneumonia grave, registrada como causa final do óbito. Ele destaca que a mortalidade, tanto no Brasil quanto no RN, concentra-se em idosos acima de 65 anos e indivíduos com comorbidades, embora a letalidade da Influenza atinja de forma majoritária a terceira idade.
"Os números seriam significativamente melhores se as metas de cobertura vacinal fossem atingidas. A baixa adesão às doses de reforço contra a Covid-19 e à vacina anual da Influenza mantém uma janela de vulnerabilidade perigosa. É urgente e necessário que o poder público invista mais em estratégias de comunicação e educação em saúde para todas as idades", reitera Valentim, enfatizando o sucesso da imunização em massa contra a Covid-19, que reduziu drasticamente os óbitos no RN. Ele aponta que para diminuir ainda mais esses índices é crucial ampliar o acesso à vacina, antecipar o calendário vacinal e reduzir o desperdício de doses.
Valentim também ressalta que, sem as vacinas e o Sistema Único de Saúde (SUS), o número de mortes no RN seria maior. "É preciso esclarecer que as vacinas podem não impedir totalmente o contágio, mas bloqueiam o agravamento que leva à UTI. Em 2026, inclusive, a antecipação das campanhas pelo Ministério da Saúde, devido à circulação precoce de novas cepas da ‘Influenza A’, foi uma estratégia acertada e muito necessária", pontua.
No ambiente hospitalar, o diretor do LAIS/UFRN aponta que os hábitos de higiene são cruciais. Relatórios da Organização Nacional de Acreditação (ONA) indicam que as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), agravadas pela falta de higienização das mãos por equipes médicas e acompanhantes, além do uso inadequado de antibióticos, elevam a mortalidade por pneumonias bacterianas superresistentes.
O atraso na busca por socorro médico e o alarmante hábito da automedicação também são agravantes. Ao mascarar sintomas gripais com antibióticos sem efeito contra vírus, pacientes adiam o diagnóstico correto, buscando unidades de saúde já em quadro avançado de insuficiência respiratória crônica, o que diminui as chances de recuperação.
Um levantamento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Natal, fornecido à Tribuna do Norte, detalha o panorama da capital potiguar no primeiro quadrimestre de 2026 (janeiro a abril). Foram notificados 3.880 casos leves de síndrome gripal com suspeita de Covid-19 no sistema e-SUS Notifica. Desses, 43 foram confirmados, 530 descartados e 3.307 permanecem como suspeitos ou inconclusivos.
Especialistas reforçam que o relaxamento comportamental pós-pandemia cobra seu preço. A sensação de segurança após o fim das emergências sanitárias levou ao abandono de hábitos preventivos básicos. "Observamos uma queda drástica no uso de máscaras por pessoas sintomáticas, menor frequência na higienização das mãos e o hábito de frequentar locais fechados mesmo estando doente. Esse comportamento negligente é um dos fatores que impulsionou o surto severo de Influenza A registrado no primeiro semestre de 2026 no país", conclui Ricardo Valentim.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário