JUROS NA PRÁTICA

Diretor do BC defende corte da Selic e compara choques de oferta a "hematoma"

Paulo Picchetti explicou que elevação da taxa não reabriria Estreito de Ormuz nem mudaria curso do El Niño, mas geraria volatilidade. Decisão do Copom cortou Selic de 14,5% para 14,25%.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, defendeu a decisão do Copom de cortar a taxa Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano, reiterando que a política de juros não deve reagir integralmente a "variações de preços decorrentes de choques de oferta". A declaração ocorreu nesta quinta-feira, 25/06/2026.

Choques de oferta são eventos inesperados que alteram a disponibilidade ou o custo de bens e serviços de forma súbita, sendo, portanto, insensíveis a mudanças na taxa básica de juros da economia. Picchetti comparou esses eventos a um "hematoma", explicando que uma eventual elevação da taxa de juros neste momento não reabriria o Estreito de Ormuz — cujo fechamento por conta da guerra entre Estados Unidos e Irã foi um fator a impulsionar a inflação corrente e as expectativas futuras, ao pressionar os preços dos combustíveis.

"É como um hematoma, leva uma pancada e fica roxo. Tem sua dinâmica, sua inércia, não tem muito o que você pode fazer no caminho para tirar ele, não tem um remédio que pode tomar. Desaparece se não houver outro choque", disse Picchetti, sobre a natureza dos chamados "choques de oferta".

"Se a gente dobrasse ou triplicasse a Selic, não ia abrir estreito de Ormuz, não ia fazer o El Nino mudar de ideia e deixar de nos visitar esse ano. Mas causaria volatilidade", acrescentou o diretor do Banco Central.

Ele reiterou que a autoridade monetária segue perseguindo o chamado "horizonte relevante" da política de juros, ou seja, a meta de 3% fixada pelo Conselho Monetário Nacional, considerando a inflação encerrada um ano e meio adiante (18 meses).

Picchetti explicou que a instituição citou, em seus comunicados oficiais sobre o corte da taxa de juros, o primeiro trimestre de 2028, embora esse não fosse o horizonte relevante (que, nesse Copom, é o ano de 2027 fechado). O objetivo foi demonstrar que as projeções recuavam mais fortemente nesse período pela dissipação do choque de oferta na economia, como o conflito no Irã e o El Niño.

"Foi uma situação especial que levou a gente a chamar a atenção a isso. Ali era um hematoma desaparecendo. A gente não esta alongando o horizonte relevante, a gente não pretende fazer isso. Foi uma situação muito especial que levou a gente a chamar a atenção a isso", disse o diretor do BC.

Como as decisões são tomadas

Para definir os juros, o Banco Central atua com base no sistema de metas. Se as projeções de inflação estão em linha com as metas, é possível baixar os juros. Se estão acima, o Copom tende a manter ou subir a Selic.

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