RISCO MILIONÁRIO
Digimais injeta milhões em fundos de alto risco, revela Estadão
Patrimônio de R$ 526 milhões em projetos com licenças pendentes e em áreas de disputa fundiária.
Uma reportagem do Estadão revelou nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, que o Banco Digimais, instituição financeira vinculada ao líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, injetou recursos em fundos de investimento considerados de alto risco. Estes fundos estão atrelados a empreendimentos que operam sem as licenças necessárias em Goiana, Pernambuco, e sobre terras em Paraty, Rio de Janeiro, historicamente palco de disputas fundiárias intensas. Essa exposição a áreas controversas e sem regulamentação adequada levanta sérias preocupações sobre a governança do banco, os impactos sociais e ambientais dos projetos financiados e a segurança dos investimentos dos cotistas, especialmente em um momento de crise para a instituição.
Os fundos possuem patrimônio somado de R$ 526 milhões. O Banco Digimais e a Igreja Universal foram procurados, mas não se manifestaram sobre o caso.
Um dos investimentos envolve o fundo Cajaíba, com patrimônio estimado em R$ 419 milhões, criado para aplicar recursos na Cajaíba Participações. Esta empresa é proprietária de terras na Praia Grande da Cajaíba, em Paraty, região reconhecida como área de proteção ambiental e social, e ocupada há gerações por comunidades caiçaras. A ocupação do local sempre foi cercada de controvérsias. Documentos históricos apontam acusações de grilagem e intimidação contra moradores tradicionais, embora não haja condenação judicial por tal crime. Para as comunidades caiçaras que vivem ali há gerações, a incerteza e a ameaça de perda de seu território e modo de vida são constantes, afetando diretamente sua dignidade e subsistência.
Nos últimos anos, projetos para construção de resort de luxo no local não avançaram após dificuldades para obtenção de licenças ambientais. Atualmente, segundo representantes da empresa, a proposta seria transformar a área em um projeto de preservação ambiental ligado à geração de créditos de biodiversidade, modelo semelhante ao mercado de crédito de carbono. A certificação, porém, só tem previsão para 2028, mantendo a indefinição sobre o futuro da região e de seus habitantes.
Outro fundo citado é o ID Goiana, com patrimônio estimado em R$ 107 milhões, direcionado a um empreendimento imobiliário em Goiana, no litoral norte pernambucano. O projeto planeja construir um condomínio em uma vasta área de aproximadamente 700 hectares de um antigo engenho. Contudo, imagens de satélite revelam que o terreno permanece intacto, coberto por vegetação nativa, sem qualquer indício de obras. A Prefeitura de Goiana ainda não concedeu a licença necessária para a construção no local, o que significa que o projeto está paralisado e o investimento do Digimais, que seria o único cotista, ainda não gerou impacto real na região ou benefícios à população local, além de levantar dúvidas sobre a viabilidade e o planejamento da iniciativa.
Os investimentos do Banco Digimais ocorreram em meio a uma profunda crise financeira enfrentada pela própria instituição. Auditorias independentes reportaram dificuldades significativas para rastrear cerca de 75% dos R$ 4 bilhões aplicados pelo banco em fundos de investimento, devido à falta de documentação suficiente para uma análise transparente. Essa opacidade levanta questionamentos sobre a gestão e a segurança dos recursos da instituição e de seus clientes.
Além disso, o Banco Digimais está sob investigação da Polícia Federal por suspeitas de fraudes financeiras. Reportagens anteriores do Estadão indicaram que o banco teria transferido carteiras de crédito com alta inadimplência para fundos de investimento, uma prática que poderia dificultar a visualização dos prejuízos nas demonstrações financeiras e mascarar a real situação da instituição.
Nos últimos meses, o banco passou por importantes mudanças em sua direção. João Urbaneja, ex-presidente e com ligações à Igreja Universal, foi substituído por Aldemir Bendine, ex-executivo que teve condenações da Operação Lava Jato anuladas pelo STJ, adicionando uma camada extra de complexidade e atenção à gestão do Digimais.
O BTG Pactual confirmou que negocia uma possível aquisição do Banco Digimais. No entanto, a operação ainda depende de um leilão e de mecanismos de suporte financeiro que podem envolver o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), indicando que o futuro do Digimais permanece incerto e dependente de complexas negociações.
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