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Diagnóstico tardio de TDAH permite a adultos compreender dificuldades e ressignificar a vida

Priscilla de Sousa, mulher de meia-idade sorrindo, em um ambiente interno.
A jornalista Priscilla de Sousa relata o impacto libertador do diagnóstico tardio de TDAH aos 46 anos.

A descoberta do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na vida adulta, como a da jornalista Priscilla de Sousa, oferece alívio e permite o desenvolvimento de estratégias para lidar com desafios antes incompreendidos.

A dificuldade em acompanhar aulas, a repetência escolar e a sensação de incapacidade acompanharam a jornalista Priscilla de Sousa por grande parte da sua vida. Foi somente aos 46 anos, em julho de 2023, que um diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) trouxe uma nova perspectiva para os obstáculos enfrentados. Essa compreensão tardia, embora não apague as barreiras vivenciadas, transforma a maneira como a própria história é percebida, oferecendo um caminho para o autoconhecimento e o bem-estar.

A descoberta surgiu quando Priscilla buscava entender o comportamento do filho mais velho, que apresentava desafios semelhantes aos seus na escola. "O meu filho mais velho estava com comportamento muito parecido com o meu na escola. Eu sempre tive TDAH, mas naquela época ainda não tinha sido diagnosticada. Eu nunca fui boa de cálculos, nunca tive facilidade com números. Reprovei a vida inteira, desde a sexta série", relata a jornalista.

As lembranças da trajetória escolar são marcantes. Priscilla conta que repetiu a sexta série duas vezes e precisou cursar duas séries simultaneamente para superar a dependência em matemática. Mesmo com as dificuldades, a sugestão da coordenação escolar do filho de investigar a possibilidade de TDAH levou a uma avaliação neuropsicológica de dez semanas. O diagnóstico dela veio primeiro, seguido pelo do filho.

"O diagnóstico foi libertador. Eu me achava burra, incompetente, incapaz. Hoje entendo que eu não era isso. Eu só não estava no lugar certo", afirma.

Ela recorda que, enquanto disciplinas ligadas à matemática eram fonte de sofrimento, atividades criativas despertavam grande interesse. Durante um curso de cinema nos Estados Unidos, por exemplo, obteve excelente desempenho em produção audiovisual e roteiro. "Eu passava horas editando, não tinha sono. Entendi que eu não era incapaz. Eu só não tinha aptidão para cálculos", relembra.

Segundo a psicóloga Beatriz Lago, esse sentimento de alívio é comum em adultos diagnosticados tardiamente. Antes da confirmação, muitos vivem com a impressão de serem desorganizados ou preguiçosos, quando, na verdade, desenvolvem estratégias compensatórias para dificuldades nunca compreendidas. "Tanto no TDAH quanto no TEA (Transtorno do Espectro Autista), é comum a adoção de estratégias para adaptar o sujeito a funcionar em um mundo pouco adaptado ao seu modo de existir. Agendas, alarmes, listas e lembretes tornam-se recursos para manter a organização e evitar esquecimentos", explica Lago.

A especialista ressalta que muitos adultos conseguem mascarar os sintomas devido a mecanismos criados para manter a rotina, mas o custo emocional costuma ser elevado. "Com frequência, o esforço para parecer ‘normal’ é tão intenso que passa despercebido por familiares, professores e profissionais, além de gerar desgaste e sofrimento emocional", afirma.

Além da procrastinação e da dificuldade de gerenciar o tempo, a psicóloga destaca que muitos convivem com ansiedade, exaustão e uma constante sensação de inadequação. O diagnóstico provoca uma profunda reorganização da identidade. "Algumas pessoas passam anos acreditando que eram desatentas, preguiçosas ou difíceis. Quando recebem o diagnóstico, finalmente encontram uma explicação para experiências que antes interpretavam como falhas pessoais", comenta.

Ao mesmo tempo, o processo pode despertar tristeza e luto pelas oportunidades perdidas. "Na clínica, frequentemente observamos que o diagnóstico não é o ponto final do processo, mas o início de um trabalho de integração e ressignificação. A pessoa passa a reconhecer suas vulnerabilidades sem reduzir sua identidade a elas, desenvolvendo uma relação mais compassiva consigo mesma", enfatiza Lago.

Para o psiquiatra Hugo Saily, o diagnóstico permite compreender melhor o funcionamento individual e buscar estratégias adequadas. "Buscar esse diagnóstico significa se entender melhor. Você percebe que aquilo que o mundo cobra talvez funcione para a maioria das pessoas, mas não necessariamente para você", explica.

Saily ressalta que o diagnóstico de TDAH considera o impacto das características na vida cotidiana. "Existe uma diferença entre ter um jeito diferente de pensar e isso representar um transtorno. O diagnóstico considera o quanto essas características prejudicam a vida da pessoa", comenta.

Mesmo com o prejuízo acumulado ao longo dos anos em casos de diagnóstico tardio, os resultados do tratamento costumam ser positivos. "No tratamento do TDAH, a resposta geralmente é muito boa. Muitos pacientes dizem que existe uma vida antes e outra depois do tratamento", relata Saily.

Estudos recentes demonstram que a identificação e o tratamento precoces do TDAH reduzem riscos de reprovação escolar, depressão, acidentes, dificuldades nos relacionamentos e até envolvimento com criminalidade na vida adulta. "Tem um estudo que mostra que o tratamento do TDAH, em crianças e adolescentes, diminui a chance de criminalidade, de morte precoce por acidentes, de reprovação, de depressão, de separação conjugal, porque a pessoa pode ter mais explosão emocional e não conseguir manter um bom relacionamento", conclui o psiquiatra.

Embora o diagnóstico tardio não recupere os anos marcados por desafios, compreender o funcionamento cerebral é um passo crucial para reduzir o sofrimento, fortalecer a autoestima e construir novas estratégias para a vida pessoal, profissional e acadêmica.

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