CIÊNCIA DESVALORIZADA
Desprezo brasileiro pela ciência impossibilita a criação de uma IA nacional competitiva
País ignora investimentos estratégicos em pesquisa básica e, por isso, não consegue desenvolver tecnologias próprias de Inteligência Artificial, ficando refém de potências estrangeiras.
A recente decisão do governo americano de restringir o acesso estrangeiro às IAs mais avançadas da Anthropic, criadora do Claude, expôs uma fragilidade que o Brasil tem relutado em encarar: a completa dependência de plataformas tecnológicas desenvolvidas em outros países. Embora a nação dependa cada vez mais desses avanços, eles não pertencem ao Brasil, e seu acesso pode ser interrompido a qualquer momento. Mais alarmante, contudo, é a incapacidade brasileira de desenvolver sua própria Inteligência Artificial (IA) competitiva.
O Brasil figura entre as nações com maior conectividade global, possui universidades de renome com pesquisadores talentosos e um mercado financeiro robusto. Apesar dessas vantagens, o país se encontra alijado da corrida global pela IA. A razão não reside em uma menor capacidade intelectual, mas sim na forma como a ciência é tratada: como um gasto, e não como um investimento estratégico fundamental.
Países que negligenciam o financiamento da pesquisa básica tendem a sentir as consequências severamente quando se veem impedidos de participar das novas revoluções tecnológicas. O desenvolvimento científico demanda tempo e paciência, virtudes raramente cultivadas na esfera pública e privada. Governos focam no ciclo eleitoral, empresas na performance trimestral e a sociedade exige resultados imediatos. A ciência de ponta, por outro lado, opera em horizontes temporais de décadas.
Avanços como o ChatGPT, Claude e Gemini não emergiram de iniciativas improvisadas. São o resultado de décadas de investimentos substanciais em matemática, estatística, computação, semicondutores e infraestrutura de redes de alta velocidade. O argumento de desenvolver a soberania digital soa oco se não houver uma discussão séria sobre a viabilização dos fundamentos científicos necessários. Investimentos anuais, mesmo que vultosos, tornam-se modestos quando comparados aos aportes contínuos ao longo de décadas realizados pelas nações líderes em tecnologia.
Agrava a situação o histórico brasileiro de descontinuar planos ambiciosos a cada mudança de governo ou variação no cenário político. Projetos bem-intencionados frequentemente se mostram desconectados da realidade. Um exemplo histórico é a Lei da Informática (1984-1992), concebida para proteger a indústria nacional de tecnologia. Em vez de fomentar pesquisa, muitas empresas copiaram equipamentos estrangeiros, vendendo-os a preços inflacionados. Com o fim da reserva de mercado, muitas sucumbiram ou mudaram de ramo, deixando um legado de defasagem tecnológica.
Atualmente, a preocupação transcende a dependência de hardware; trata-se de uma submissão intelectual. O Brasil está moldando uma sociedade que pensa, produz e decide com base em sistemas que não domina, correndo o risco de ser excluído das decisões cruciais do futuro. A verdade é que a corrida pela IA já foi perdida. A instalação de datacenters no país, embora celebrada, é um feito vazio, análogo a possuir bons estádios sem conquistar a Copa do Mundo.
É preciso abandonar a autocomplacência com a criatividade nacional e focar no uso eficaz das tecnologias importadas. As ciências, tanto a básica quanto a aplicada, devem ascender de políticas de governo para políticas de Estado. A iniciativa privada, por si só, não possui a capacidade financeira para tal empreitada. A solução reside em universidades significativamente mais bem equipadas e em pesquisadores mais valorizados e estimulados.
Um cenário de sucesso, com resultados concretos, demandará aproximadamente duas décadas. Caso contrário, em vinte anos, o Brasil ainda estará debatendo como se adequar à próxima onda tecnológica, em posição de eterna submissão.
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