VIÉS DE GÊNERO
Desigualdade de gênero barra avanço de mães no trabalho, diz estudo
Fesa Group ouviu 600 mulheres líderes; quase 80% veem menos oportunidades. PwC Brasil destaca impacto econômico e social.
A complexa interseção entre maternidade e carreira persiste como um dos maiores obstáculos à ascensão profissional feminina no Brasil, impactando a dignidade e o futuro de milhares de mulheres. Uma pesquisa recente da Fesa Group, que ouviu quase 600 executivas em cargos de liderança, revela que a chegada dos filhos freia a trajetória de aproximadamente 60% delas, evidenciando uma profunda desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Estes dados, apresentados nesta domingo, 10 de maio de 2026, apontam para a urgência de mudanças estruturais que garantam equidade e reconheçam o valor da mulher profissional e mãe.
O levantamento da Fesa Group expõe que quase 80% das entrevistadas não percebem as mesmas oportunidades que os homens para alcançar posições de liderança. O impacto da maternidade na carreira, afirmado por 59,1% das participantes, manifesta-se em menos promoções, salários mais baixos e rotinas corporativas incompatíveis com as responsabilidades familiares.
Esse fenômeno, amplamente conhecido como "penalidade da maternidade", leva muitas empresas a avaliar, de forma velada, a intenção de candidatas engravidarem durante processos seletivos. Diante dessa realidade que impõe a cruel escolha entre a vida pessoal e profissional, o número de mulheres que recorrem ao congelamento de óvulos para adiar a maternidade e focar na carreira cresceu mais de 80% nos últimos cinco anos, segundo dados da Anvisa e da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. Um sacrifício pessoal em nome da ambição profissional.
Viés Inconsciente e o Preço para a Economia
Para além das barreiras explícitas, a pesquisa do Fesa Group aponta para um fator ainda mais desafiador de identificar e combater: o viés inconsciente. Uma das manifestações mais comuns, presente tanto entre homens quanto entre mulheres, é a crença de que o cuidado com os filhos recai exclusivamente sobre a mãe, reforçando papéis de gênero ultrapassados.
A desigualdade de gênero no ambiente profissional não apenas sufoca talentos individuais, mas também impõe um custo elevado à economia. Um estudo da PwC Women in Work indica que diminuir essa lacuna é essencial para combater a escassez de mão de obra, impulsionar a inovação e elevar a diversidade de talentos nas empresas, melhorando a produtividade geral dos países.
Marco Castro, CEO da PwC Brasil, sublinha a necessidade de ampliar esta discussão em toda a sociedade. "Tudo o que vemos acontecendo com as mulheres, especialmente em uma sociedade como o Brasil, os homens também são responsáveis por isso. Então eles precisam ser protagonistas no apoio e na pauta de inclusão dessas mulheres na igualdade que tem de ser feita", afirmou.
Vozes que Rompem o Silêncio
Patrícia Pugas, diretora-executiva de gestão no Magazine Luiza, com quase 30 anos de experiência na vida executiva e mãe de três filhas, relata os desafios de equilibrar a maternidade com as exigências da carreira. "Existe uma cobrança, uma autocobrança enorme, nossa, com nós mesmas, em relação a isso. Não é possível você estar em dois lugares ao mesmo tempo. Você não vai conseguir estar em uma reunião de escola e na sua reunião de trabalho", desabafou.
Apesar das dificuldades e da carga emocional, avanços são visíveis. Mais mulheres conquistam posições-chave, mais organizações revisam suas políticas internas para acolher a liderança feminina e mais executivas compartilham suas trajetórias para inspirar futuras gerações. "Se você hoje tem muito mais mulheres em posições de liderança e servindo de exemplos e referência para as outras mulheres, esse é um tema muito importante: a mulher olhar para cima e falar, poxa, é possível chegar lá", ressaltou o CEO da PwC.
Para Patrícia Pugas, o poder do exemplo é transformador: "Se ela conseguiu, eu também posso conseguir. E pode mesmo, lógico." Essas histórias abrem caminhos e fortalecem a luta por um ambiente de trabalho mais justo e inclusivo, onde a maternidade seja valorizada, e não um obstáculo.
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