ORÇAMENTO APERTADO
Desenrola 2.0: por que a renegociação não basta para sair do vermelho
Novo Desenrola Brasil visa renegociar R$ 58 bilhões para 20 milhões de pessoas. Endividamento atinge 80,9% das famílias em abril de 2026; custo de vida e crédito caro mantêm brasileiros no vermelho.
Para enfrentar o crescente endividamento das famílias brasileiras, que atinge patamares recordes, o governo federal relançou o Novo Desenrola Brasil, a segunda edição de seu programa de renegociação de dívidas. A iniciativa, que busca oferecer um alívio financeiro crucial e reaquecer a economia, tem como meta impactar cerca de 20 milhões de pessoas e renegociar até R$ 58 bilhões em débitos, conforme noticiado nesta sexta-feira, 08 de maio de 2026, em um cenário de contrastes econômicos.
Apesar dos esforços governamentais, o endividamento das famílias brasileiras, impulsionado por financiamentos, cartões de crédito e empréstimos, atingiu 80,9% em abril de 2026, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência, ou seja, as dívidas em atraso, também se mantém elevada, afetando 29,6% das famílias.
Este preocupante cenário de alto endividamento contrasta nitidamente com indicadores econômicos que, à primeira vista, sugerem um quadro mais favorável. O país celebra uma taxa de desemprego em mínima histórica, a renda média da população registra alta e o Produto Interno Bruto (PIB) acumula crescimento pelo quinto ano consecutivo.
No trimestre encerrado em março de 2026, o mercado de trabalho alcançou uma taxa de desemprego de 6,1%, o menor patamar para o período, enquanto o rendimento médio mensal superou R$ 3.722, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Diante dessa aparente contradição, uma questão central emerge: por que, mesmo com mais emprego e renda, o cidadão brasileiro continua preso ao ciclo do endividamento?
A resposta a essa complexa realidade transcende o mero salário, a oferta de trabalho ou uma economia aquecida. Fatores estruturais, como o custo de vida persistentemente elevado, o crédito com juros proibitivos e a crescente dependência de financiamentos para sustentar o consumo básico, explicam a persistência desse fenômeno social.
Aperto Financeiro e a Volatilidade Econômica
O aperto financeiro que sufoca muitos lares tem raízes em decisões econômicas passadas. Após o impacto devastador da pandemia, o Brasil adotou, em outubro de 2020, uma taxa Selic historicamente baixa, de 2% ao ano, numa tentativa de reestimular a economia e facilitar o acesso ao crédito durante a crise. Contudo, com a reabertura econômica entre 2021 e 2022, a inflação disparou, forçando o Banco Central a uma guinada abrupta, elevando os juros novamente para conter o avanço dos preços e frear o consumo.
Em maio de 2023, o governo federal lançou a primeira edição do Desenrola, que trouxe um alívio temporário ao renegociar R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros. No entanto, essa folga não se mostrou sustentável. Ao longo de 2024 e, especialmente, em 2025, a instabilidade na economia global, influenciada por eventos como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, fez os preços voltarem a subir, realimentando o ciclo de endividamento.
Para o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, a melhoria recente no mercado de trabalho não foi suficiente para desanuviar o orçamento das famílias. Ele explica que, embora o desemprego tenha diminuído e a renda crescido, o custo de vida se mantém significativamente mais alto do que em anos anteriores, agravado pelo peso das dívidas acumuladas. “É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, ele ressalta.
Muitas famílias ainda carregam o fardo de dívidas contraídas desde a pandemia. Dados do Banco Central revelam que o comprometimento da renda familiar com dívidas, sobretudo bancárias, alcançou 29,3% em janeiro de 2026, o maior nível já registrado na série histórica.
Com uma parcela maior da renda comprometida, o orçamento familiar permanece apertado. Na prática, qualquer ganho extra é imediatamente direcionado para despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e o pagamento de dívidas antigas, sem gerar qualquer folga financeira real.
“Quando a família tem renda adicional, ela reforça o orçamento com alimentação, moradia e transporte e, quando possível, paga dívidas antigas. Isso não gera folga financeira”, explica o economista. Ele ainda complementa: “As famílias sentem a economia principalmente pelos itens mais frequentes do orçamento, sobretudo os alimentos”.
Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, corroboram esse cenário de constante pressão sobre o bolso do consumidor:
- No início do primeiro Desenrola, em maio de 2023, a alta nos preços dos alimentos, considerando os 12 meses anteriores, acumulava 5,54%.
- Posteriormente, o índice seguiu em trajetória de aceleração, com algumas quedas pontuais, e chegou a 7,81% em abril de 2025.
- No mesmo período, a inflação geral (a alta de preços em toda a economia) alcançou 5,53%, o maior nível desde janeiro de 2023 (5,77%).
Os registros do instituto também apontam forte volatilidade nos preços de diversos alimentos básicos nos últimos anos, com itens específicos atingindo picos de inflação muito acima da média geral.
O arroz, por exemplo, registrou a maior alta, chegando a 74,14% no acumulado em 12 meses em janeiro de 2021. Feijão, leite, frutas e hortaliças também exibiram aumentos expressivos, superando 20% em diferentes períodos. Mais recentemente, as carnes passaram a ser as vilãs da inflação alimentar, com uma alta acumulada de 21,17% em janeiro de 2025.
Além disso, os brasileiros dispõem de menos renda após cobrir as despesas básicas. Em março de 2026, os gastos com itens essenciais consumiam 41,8% do orçamento das famílias, pressionados principalmente por habitação, transportes, saúde, educação e alimentação, conforme dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria.
Isso se traduz em uma parcela cada vez maior da renda das famílias sendo direcionada para cobrir gastos indispensáveis do dia a dia, resultando em menos dinheiro disponível para consumo, lazer, poupança ou a quitação de dívidas. Com o orçamento mais apertado, o poder de compra diminui e a dificuldade para sair do endividamento se intensifica.
“Mesmo quando a inflação geral desacelera, isso não significa alívio no dia a dia. Se itens básicos sobem, a sensação é imediata de perda de poder de compra”, pontua Flávio Ataliba. “E quem já tem parte da renda comprometida com dívidas sente esse impacto de forma mais intensa”, acrescenta.
O Papel Crucial da Educação Financeira
Além do complexo cenário econômico, o comportamento financeiro individual também desempenha um papel fundamental na manutenção do alto endividamento no país, mesmo diante de sinais recentes de melhora no emprego e na renda. Para a economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, o chamado “viés do presente” ajuda a explicar por que o consumo se mantém elevado, mesmo com juros altos.
“As pessoas não analisam a taxa de juros nem o custo total da dívida, focando apenas se a prestação cabe no bolso naquele mês”, afirma. “Elas também compartimentam os gastos em ‘caixinhas’ e perdem a visão do todo. Pequenas parcelas parecem inofensivas isoladamente, mas, somadas, comprometem irremediavelmente o orçamento.”
Nesse contexto, Olívia Resende destaca que o problema não reside apenas no custo do crédito, mas na forma como ele é utilizado no cotidiano. “Mesmo com juros altos, muitas pessoas não ajustam o consumo, não reduzem despesas ou não buscam outras fontes de renda. Elas continuam utilizando crédito porque priorizam a parcela mensal em detrimento do custo total da dívida.”
Segundo a economista, esse padrão se perpetua porque as decisões financeiras nem sempre são totalmente racionais, sofrendo forte influência de estímulos externos. “As famílias acabam sendo impactadas por marketing agressivo, pelas redes sociais e pela facilidade de acesso ao crédito digital”, explica.
Uma pesquisa recente, realizada pela Creditas em parceria com a Opinion Box, revela que 59% dos brasileiros iniciaram o ano sob intensa pressão financeira. Desse total, 34% se declaram preocupados, 14% em recuperação e 11% sob forte pressão, enquanto apenas 39% afirmam ter começado o ano com uma sensação de controle sobre suas finanças.
A imprevisibilidade (32%), a falta de disciplina financeira (27%) e a limitação de renda (25%) figuram entre os principais obstáculos para um planejamento financeiro eficiente no Brasil.
Outros dados reforçam que o endividamento não se limita à falta de renda. Segundo a CNC, em março de 2026, o cartão de crédito era a principal modalidade de dívida para 84,9% dos consumidores endividados, evidenciando o uso recorrente do crédito no dia a dia, especialmente via parcelamento.
Olívia Resende enfatiza que a ausência de educação financeira contribui para manter um ciclo vicioso de dependência do crédito. “Quando há entendimento dos limites, a necessidade de recorrer ao crédito diminui”, afirma. “Sem isso, qualquer renegociação ou redução de juros tem efeito meramente temporário, pois o padrão de consumo permanece inalterado.”
“Se não houver educação financeira na escola e na formação das famílias, o problema tende a se repetir indefinidamente”, ela pontua. “É uma mudança de mentalidade. A ideia é transformar a forma como as pessoas lidam com o dinheiro no dia a dia.”
A Perigosa Normalização do Endividamento
A economista também alerta para o que define como a “normalização do endividamento”. Como destacado pelo g1, conteúdos que prometem atalhos para reduzir dívidas — especialmente as bancárias — ganham força nas redes sociais, incluindo orientações para interromper pagamentos deliberadamente e recorrer à Lei do Superendividamento.
“Quando todos estão endividados, isso gera um certo conforto psicológico. A pessoa passa a achar que é normal e perde o senso de urgência para resolver o problema”, analisa Olívia.
Além disso, as decisões financeiras frequentemente são tomadas com base em emoções ou informações incompletas. “Os produtos bancários são complexos, e muitos não compreendem exatamente o que estão contratando. Às vezes, a decisão provém de um impulso ou de uma necessidade emocional, como auxiliar um familiar”, afirma.
Diante desse cenário complexo, a economista defende a educação financeira como ferramenta essencial para enfrentar o problema de forma estrutural. “Renegociar dívidas ajuda no curto prazo, mas, sem uma mudança de comportamento, o problema retorna”, afirma. “Organizar o orçamento evita recorrer a crédito caro. Finanças não é só planilha, é entender hábitos e controlar gastos do dia a dia.”
Na avaliação de Olívia Resende, a educação financeira deve começar cedo e envolver toda a sociedade, combinando o alívio imediato com uma transformação de comportamento a longo prazo. “Sem isso, a gente só empurra o problema para frente”, conclui.
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