ALERTA FINANCEIRO

Desenrola 2.0 não resolverá crise sem reformas, diz Eric Brasil

Desenrola 2.0 não resolverá crise sem reformas, diz Eric Brasil

Especialista da LCA analisa endividamento recorde e aponta armadilha do crédito rotativo. Necessidade de educação financeira e juros justos.

Com o governo federal planejando o lançamento do Desenrola 2.0 para enfrentar o endividamento recorde, Eric Brasil, diretor da consultoria LCA, emitiu um alerta crucial nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026: sem reformas estruturais profundas, o programa corre o risco de ser apenas uma medida paliativa. A advertência sublinha a necessidade urgente de combater as causas reais que aprisionam milhões de famílias brasileiras em ciclos de dívida, impactando diretamente sua dignidade financeira.

Apesar do cenário de melhora no mercado de trabalho, com o Brasil registrando mínimas históricas de desemprego e crescimento da renda e ocupação, a inadimplência e o endividamento familiar seguem em patamares alarmantes. Eric Brasil, em entrevista ao CNN Money, ressaltou que esta dinâmica é contraditória. "Quando olhamos para dados do mercado de trabalho, esperaríamos uma evolução no sentido contrário, de redução do endividamento e da inadimplência", explicou o diretor da LCA.

Crédito rotativo e juros elevados sufocam orçamentos

O crescimento do endividamento desde o período pós-pandemia, conforme detalha Eric Brasil, está intrinsecamente ligado à expansão do crédito rotativo. Produtos como cartão de crédito e cheque especial, apesar de facilmente acessíveis, impõem custos altíssimos às famílias, que muitas vezes se veem presas em uma espiral de juros exorbitantes.

"O crédito rotativo na economia brasileira é disparado o crédito mais caro, com as maiores taxas de juros que temos", enfatizou Brasil. Ele complementou que o Brasil detém hoje a segunda maior taxa de juros real do mundo, agravando drasticamente a situação das famílias que, por necessidade ou falta de opção, buscam essa modalidade de crédito.

Eric Brasil alertou que a perigosa combinação de crédito de fácil acesso e juros estratosféricos gera uma dinâmica cruel: o menor desequilíbrio no orçamento familiar empurra rapidamente o cidadão para um ciclo vicioso de rolagem de dívidas e, inevitavelmente, a inadimplência. É uma batalha diária pela dignidade financeira.

"Essa condição faz com que qualquer dificuldade que a família enfrente em seu orçamento a coloque em uma dinâmica de rolagem de dívida que conduz à inadimplência", detalhou. A ausência de educação financeira, especialmente entre as famílias que ingressaram recentemente no mercado de crédito, também figura como um fator agravante que perpetua o ciclo de endividamento.

Desenrola 2.0: paliativo ou solução duradoura?

Apesar da boa intenção do governo ao planejar o Desenrola 2.0, Eric Brasil alertou sobre o perigo de que o programa ofereça apenas um alívio estatístico temporário, sem atacar as causas fundamentais do problema.

"Se o programa for concebido como uma ação pontual e emergencial, desacompanhado de políticas de fundo e estruturais, ele será, na verdade, apenas uma solução de curto prazo", ponderou. O diretor da LCA projeta que, sem essas mudanças profundas, o Brasil inevitavelmente estará debatendo um novo programa de renegociação de dívidas em apenas dois ou três anos, perpetuando o ciclo de socorro.

Entre as reformas estruturais urgentes, Eric Brasil apontou a necessidade de combater as origens das altas taxas de juros de curto prazo para o consumidor. Ele defendeu a massificação de programas de educação financeira, desde o ensino fundamental, e exigiu um comprometimento mais robusto das instituições financeiras na concessão responsável de crédito, garantindo que não se alimente o endividamento excessivo.

"Precisamos também de um compromisso conjunto das instituições financeiras e das autoridades para apoiar as famílias na reorganização de seus orçamentos, oferecendo caminhos reais para a recuperação da autonomia financeira", finalizou.

Apostas esportivas: impacto marginal no endividamento

Ao ser questionado sobre o impacto das apostas esportivas (BETs) no endividamento familiar, Eric Brasil foi categórico. Ele afirmou que, em uma perspectiva macroeconômica, o mercado de apostas no Brasil não possui dimensão para ser apontado como uma causa principal da inadimplência generalizada que assola o país.

Com base em dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o diretor da LCA ilustrou que, em 2025, o mercado de apostas representou apenas um terço do mercado de aparelhos e aplicativos de celular e metade do mercado de streaming, demonstrando sua escala limitada frente a outras despesas do cotidiano.

"O problema da inadimplência no Brasil não se associa a um padrão de consumo específico das famílias", concluiu Brasil. Ele reforçou que a verdadeira raiz do problema reside no uso descontrolado e inadequado do crédito rotativo, uma armadilha financeira que aprisiona milhões de brasileiros.

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