DÍVIDA E FGTS
Desenrola 2.0: Inhasz alerta para risco de perder caráter excepcional
Economista Juliana Inhasz aponta que uso do FGTS para quitação de débitos pode criar "retaguarda permanente" para devedores. Impacto estimado em R$ 4,5 bilhões no fundo.
O governo federal prepara o lançamento do Desenrola 2.0, programa que permitirá a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos utilizar o saldo do FGTS para quitar dívidas, com descontos que podem chegar a 90%. Contudo, para a professora de Economia do Insper, Juliana Inhasz, a iniciativa, que deve ter um impacto de R$ 4,5 bilhões no fundo, corre o risco de desvirtuar o caráter excepcional de programas de renegociação, criando uma perigosa dependência e comprometendo a segurança financeira futura da população, conforme alertou neste sábado, 02 de maio de 2026.
A economista destaca que a repetição de programas como o Desenrola em um curto intervalo de tempo – este é o segundo em menos de três anos – pode fazer com que a sociedade passe a encará-los não como soluções emergenciais, mas sim como uma espécie de "retaguarda permanente" contra o endividamento. "Tiramos um programa desse caráter excepcional e podemos estar começando a criar um programa recorrente", explica Inhasz.
Essa percepção gera apreensão entre as instituições financeiras. A preocupação reside na possibilidade de novas ondas de endividamento e inadimplência, o que, por sua vez, pode levar ao aumento das taxas de juros, penalizando inclusive os cidadãos que mantêm suas contas em dia.
Embora a utilização do FGTS para a quitação de dívidas possa parecer uma saída viável para pessoas em situação de alto endividamento, a especialista alerta para a redução da segurança financeira futura do trabalhador. "É como se estivéssemos substituindo o consumo lá na frente pelo pagamento da dívida hoje", compara Inhasz, destacando o dilema entre o alívio imediato e o comprometimento de recursos essenciais para emergências ou projetos de longo prazo.
O objetivo governamental com a medida, segundo a professora, é reativar o mercado e impulsionar o consumo em um cenário de desaceleração econômica. Contudo, ela frisa que o trabalhador arca com o custo de perder uma fonte de renda futura de grande importância, sacrificando sua poupança forçada para aquecer a economia agora.
Outro ponto do Desenrola 2.0 é a restrição de acesso a sites de apostas esportivas por um ano para os aderentes. Sobre isso, Juliana Inhasz defende cautela, argumentando que as plataformas de apostas não devem se tornar o único "bode expiatório" para o complexo problema do endividamento no Brasil.
"Seria importante que o governo mostrasse dados e estudos claros sobre realmente o papel das bets nesse aumento de endividamento", pontua a economista. Ela reitera que o endividamento no país possui raízes estruturais mais profundas, como a baixa produtividade, a renda insuficiente e a carência de educação financeira – questões que o programa atual não aborda diretamente.
"Continuamos fazendo um paliativo, tentando dar um tratamento para a consequência desse problema no curto prazo, mas ele continua existindo", conclui a professora, ressaltando a necessidade de soluções que ataquem as causas-raiz da vulnerabilidade financeira dos brasileiros.
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