FILME SOB CONTROVÉRSIA
"Dark Horse" pode configurar propaganda eleitoral irregular? Entenda o caso
Áudios revelam negociação de R$ 134 milhões para o longa sobre Jair Bolsonaro, levantando suspeitas de financiamento ilegal e propaganda antecipada. Especialistas analisam os limites entre obra artística e campanha.
A discussão sobre o filme "Dark Horse", que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ganhou força após a divulgação de áudios de uma conversa entre o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O conteúdo revelou uma negociação de US$ 24 milhões (equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época) para o financiamento da obra, levantando o debate sobre a possibilidade de propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder econômico.
Os áudios, publicados pelo site Intercept Brasil, detalham Flávio Bolsonaro cobrando o repasse de parcelas que estariam em atraso e seriam cruciais para evitar endividamentos com os envolvidos na produção. A legislação eleitoral permite o patrocínio de candidaturas por pessoas físicas, mas veda expressamente o financiamento por parte de pessoas jurídicas. Diante disso, um grupo de juristas, advogados e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) levaram o caso ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pedindo o impedimento da exibição do filme antes das eleições.
O advogado eleitoral Kaleo Dornaika, em análise à CNN, explica que a configuração de propaganda eleitoral exige um pedido explícito de voto. Já o abuso de poder econômico se configura quando o candidato utiliza fontes irregulares de recursos, como financiamento por empresas, prática considerada ilegal. Para que o filme seja enquadrado como propaganda eleitoral irregular por financiamento de pessoa jurídica, seria necessário comprovar que a obra está diretamente ligada à campanha eleitoral.
"No caso do filme, seria necessário demonstrar que se trata de uma peça de propaganda ligada diretamente à campanha para que seja configurado o financiamento por pessoa jurídica", afirma Dornaika. Ele ressalta, porém, que a análise deve ponderar o direito à livre manifestação de pensamento, especialmente por se tratar, em tese, de uma obra artística. "Todavia, esse entendimento deve ser sopesado com a livre manifestação de pensamento, já que se trata, a princípio, de uma obra artística."
O advogado eleitoral Alberto Rollo traça um paralelo com o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026, utilizando recursos públicos. Embora a apresentação tenha sido vista por muitos como propaganda eleitoral antecipada, a agremiação não foi impedida de desfilar. "O paralelo é que a Justiça Eleitoral também vai decidir [sobre o filme]. Não dá para falar: ‘Proíbe de estrear em setembro, só pode estrear em novembro, depois da eleição.’ Entendo que isso é censura, igual [ao que pediram sobre o desfile de Lula] no Carnaval", disse Rollo.
Dornaika reitera que o filme possui, "a princípio, uma finalidade artística". Contudo, ele pontua que a data de lançamento da obra pode ser um fator relevante para a Justiça Eleitoral, indicando uma intenção de influenciar o eleitorado. "Se, por outro lado, for demonstrado que a finalidade é o convencimento do eleitor, poderá ser considerado propaganda. O ‘timing’ do lançamento, por exemplo, indicaria que foi usado no momento da campanha como forma de influenciar o eleitorado", explicou. Ele também mencionou que a exaltação de qualidades pessoais antes do período eleitoral é permitida pela lei, mesmo que em pré-campanha.
Quebra de sigilo de fundo investigado pela PF
Paralelamente, a Polícia Federal (PF) busca meios jurídicos para acessar informações de um fundo financeiro onde parte do dinheiro repassado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento de "Dark Horse" teria sido direcionado. A corporação avalia a melhor forma de solicitar às autoridades dos Estados Unidos o acesso aos dados do fundo Havengate, que teria recebido pelo menos US$ 2 milhões de um montante total de US$ 10 milhões transferidos por Vorcaro.
As investigações da PF visam apurar se parte desses recursos foi utilizada para cobrir despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Essa linha de investigação considera que Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, figura como um dos responsáveis legais do Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. A PF estuda utilizar o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, vinculado ao Ministério da Justiça, ou uma cooperação com a Interpol, por meio de um alerta internacional de difusão prateada, para obter os dados.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário